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Alysson Lisboa Neves Jornalista
02/Mar/2017 - 10h08 - Atualizado em 02/Mar/2017 - 10h30

Ozires Silva: Um sábio só nasce em uma sociedade sábia

“Precisamos de uma educação competente para cada brasileiro. Só assim não ficaremos fora da grande revolução que estamos atravessando no mundo”


Por Alysson Lisboa Neves Belo Horizonte
O ex-ministro Ozires Silva esteve em Belo Horizonte para a inauguração do Anima Lab
Crédito: Alysson/Simi

 

Ex-ministro de Infraestrutura da década de 1990, ex-presidente da Embraer e atualmente Presidente do Conselho de Administração e reitor da Unimonte, Ozires Silva esteve em Belo Horizonte recentemente e conversou com o Simi sobre educação e os desafios do país. Leia a entrevista na íntegra.

Como o senhor observa a transformação tecnológica hoje, se comparada à tecnologia que tínhamos na década de 1970, quando o senhor assumiu a presidência da Embraer?

Na realidade, no passado, a gente podia prever o desenvolvimento tecnológico, porque ela se desenvolvia por acréscimos que eram, por sua vez, razoavelmente previsíveis. Hoje a tecnologia caminha por rupturas em relação ao passado, são exponenciais. Nas instituições de ensino uma pergunta que sempre nos atormenta é como vamos preparar os jovens para enfrentar essas rupturas de tecnologia que acontecem cada vez mais rapidamente.

Embraer hoje disputa os céus dos Brasil com empresas estrangeiras. O ex-ministro Ozires Silva foi presidente da Empresa na década de 1990.
Fotomontagem/Simi

Essa semana, os jornais divulgaram um veículo que, ao mesmo tempo, é automóvel, helicóptero e avião, ou seja, é um híbrido. Há pouco tempo no Oriente Médio começou a funcionar um carro autônomo. Aí eu pergunto: Isso não era previsível no passado. Precisamos estar preparados para enfrentar o imprevisível, porque as rupturas estão acontecendo e são muito profundas. Não dá nem tempo de absorver.

E como podemos nos preparar para tais transformações?
Há 20 anos você poderia prever que iríamos usar um aparelho de comunicação que fosse tão prático como um celular? Agora, qual desafio temos? Como os celulares vão evoluir, em qual direção? Temos que estar preparados o tempo inteiro para as rupturas tecnológicas que virão. Para isso, precisamos de uma educação de alto nível.

Nosso país não está caminhando nessa direção. A grande maioria dos estudantes quer um carimbo do MEC e eles impõem uma série restrições. Surpreendi meu filho em casa, dia desses. Ele estava tirando fotos das fotografias de família e fiquei olhando e pensando: Ele está fazendo o cadastro permanente que ficará nas nuvens. O mundo está realmente sujeito a essas rupturas e temos que conviver com isso.

O senhor então é um pessimista em relação à educação no Brasil?
Se olhar de uma forma estática, sou pessimista. Essa forma foi estabelecida por pessoas e pessoas podem alterar isso. Sinto falta de lideranças assim. Se você olhar nesta direção, por exemplo, pode achar o presidente norte-americano Donald Trump um estabanado, mas na verdade ele está atingindo o núcleo do problema. Querer novidades é fazer mudanças que realmente rompem com um modelo estabelecido.

Estamos vivem uma crise no modelo educacional? As instituições de ensino oficial ainda vão permanecer relevantes uma vez que o conhecimento está sendo construído hoje por várias vias?Acho que não. Quando me graduei no ITA (Instituto Tecnológico Aeronáutico), há mais de 60 anos, não liguei a mínima. O diploma não tem carimbo do Ministério da Educação e reconhecimento do Crea. Isso vai acabar. Veja o Steve Jobs. Ele não tinha e nunca teve diploma. Acho que ele estava à frente do seu tempo quando disse que não tinha tempo a perder na escola.

Mas no Brasil o currículo ainda conta muito, não é verdade?
Quando você trabalha precisa conversar com pessoas que fazem a diferença e isso não está estampado na cara. Você é o que o meio projeta. Se o Einstein tivesse nascido na África ou no Brasil ele teria sido o físico que conhecemos? Steve Jobs teria feito isso aqui no Brasil? Com certeza não! Cunhei uma frase que digo cotidianamente: um sábio só nasce em uma sociedade sábia. A indústria tem que massificar a educação e a aprendizagem para que todos sejam competentes e sábios, porque é daí que vem a competência dos grandes líderes mundiais. Na realidade, você precisa atingir a todos. Se deixar escapar um, pode ter sido o líder e você deixou de fora. Por isso, insisto em uma educação competente para cada brasileiro. Se não atingirmos isso vamos ficar para trás.

#animaFavoritar

Sobre o autor
Alysson Lisboa Neves Jornalista

Especialista em produção em mídias digitais e mestre em comunicação digital interativa pela Universidad de Vic, Espanha. Mais de 20 anos de experiência em mídia impressa e digital, tendo passado pelos jornais Hoje em Dia e Estado de Minas. Na Revista Encontro desempenhou a função de editor de novas mídias, coordenador da equipe digital e colunista. É também especialista em desenho de jornais e revistas em tablets e smartphones. Foi professor de jornalismo no Centro Universitário de Belo Horizonte - Uni-BH. Professor de pós-graduação no Centro Universitário Una. É palestrante nas áreas ligadas ao jornalismo digital, novas mídias, inovação em desenho de jornais e revistas, redes sociais e marketing digital. É colunista do Portal Uai e consultor de novas mídias e marketing digital.

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