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Luciano Sathler
18/Jan/2021 - 13h40 - Atualizado em 18/Jan/2021 - 13h44

A Porta do Não Retorno, edtechs e a inovação aberta nas escolas

A importância de modernizar os programas de educação e formação profissional para ampliar a inserção das pessoas como protagonistas da economia digital


Por Luciano Sathler

A Porta do Não Retorno era o último local da rota dos escravos no continente africano, onde os cativos eram embarcados sem esperança de voltarem a reencontrar suas famílias e a terra que viviam em liberdade. Por mais de três séculos, milhões de seres humanos sofreram com a violência, a expropriação e o chamado comércio das almas, sendo o Brasil o país que recebeu o maior número de escravizados, o que marca profundamente a sociedade brasileira até os dias de hoje.

Uma escola que não é capaz de educar com qualidade e equidade pode se tornar uma Porta do Não Retorno para muitos jovens que vão engrossar as estatísticas do desemprego estrutural.

A economia digital se articula a partir das mudanças paradigmáticas trazidas pelas novas tecnologias, que embutem o risco de aumentar o fosso da desigualdade e piorarem as condições dos jovens no mundo do trabalho.

Em recente relatório*, a Organização Internacional do Trabalho alerta que muitos trabalhadores jovens se envolvem em empregos de baixa qualidade para sobreviver, em condições precárias, instabilidade, falta de proteção legal e social e oportunidades limitadas de capacitação e progressão na carreira.

Embora os jovens estejam entre os mais dispostos a abraçar novas tecnologias, muitos têm profundas ansiedades sobre o impacto que os avanços mais recentes em robótica e inteligência artificial poderiam ter em suas futuras perspectivas de emprego.

Essas preocupações são justificadas, uma vez que os jovens têm mais probabilidade de trabalhar em ocupações com maior risco de automação e, consequentemente, estão mais expostos ao risco de desemprego e inatividade. Isso destaca a importância de modernizar os programas de educação e formação profissional para ampliar a inserção das pessoas como protagonistas da economia digital. É altamente recomendável que as escolas e redes de ensino estabeleçam programas de inovação aberta com o engajamento de startups voltadas a encontrar soluções para a educação – as chamadas edtechs.

O mapeamento** realizado pela Associação Brasileira de Startups (Abstartups) e o Centro de Inovação para a Educação Brasileira (CIEB) identificou 449 edtechs em todo o Brasil no ano de 2019. Porém, há informações ainda não sistematizadas que esse número aumentou bastante durante o ano de 2020, inclusive em reação aos impactos nas escolas do distanciamento social necessário para o enfrentamento da pandemia Covid-19. A tipologia das soluções ofertadas pelas edtechs pode ser conferida na figura abaixo.

 edtechs

No sentido de promover a inovação aberta e dada a reconhecida importância das compras públicas como impulsionadoras da inovação, é louvável a iniciativa da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado de Minas Gerais com o Programa SEED EspecialStartups and entrepreneurship Ecosystem Development, com inscrições abertas até 12 de fevereiro de 2021. Seria recomendável num futuro próximo incluir a Secretaria Estadual de Educação como uma das proponentes de desafios públicos, talvez numa edição especial SEED Edtech

Para aproveitar ao máximo o potencial das edtechs nas escolas devem ser envolvidos estudantes e professores, inclusive como parte das atividades interdisciplinares e metodologias ativas aplicadas em unidades curriculares, de forma a desenvolverem as competências digitais nas práticas pedagógicas e cooperarem com a avaliação das soluções implementadas.

 

* OIT. Global employment trends for youth 2020: Technology and the future of jobs. Genebra, Suíça: Organização Internacional do Trabalho (OIT), 2020.

** ABSTARTUPS. Mapeamento edtech 2019: Investigação sobre as startups de tecnologia educacional no Brasil. São Paulo: Associação Brasileira de Startups – Abstartups; Centro de Inovação para a Educação Brasileira – CIEB, 2020.

 

Luciano Sathler


Doutor em Administração pela FEA/USP. Membro do Comitê de Educação Básica da Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED). Membro do Conselho Deliberativo do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI). Membro do Conselho de Educação e Treinamento da Federação das Indústrias de Minas Gerais (FIEMG). Vice-Presidente da Sucesu Minas. Reitor do Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Foi o primeiro Pró-Reitor de Educação a Distância do Brasil. Linkedin

 

#edtech#educaçãoFavoritar

Sobre o autor
Luciano Sathler

Membro do Comitê de Educação Básica da Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED). Membro do Conselho Deliberativo do
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI). Membro do Conselho de Educação e Treinamento da Federação das Indústrias de Minas Gerais (FIEMG). Diretor da Sucesu Minas. Reitor do Centro Universitário
Metodista Izabela Hendrix. Foi o primeiro Pró-Reitor de Educação a Distância do Brasil.

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