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Luciano Sathler
04/Nov/2020 - 14h32 - Atualizado em 04/Nov/2020 - 14h33

A urgência da requalificação e o futuro do trabalho

A aceleração da cultura que a pandemia impôs ao mundo inclui a urgência de uma ruptura paradigmática no campo da educação.


Por Luciano Sathler

A aceleração da cultura que a pandemia impôs ao mundo inclui a urgência de uma ruptura paradigmática no campo da educação. A maioria das escolas e das universidades ainda se sustentam em modelos criados para atender às necessidades da sociedade industrial do Século 18, com rituais medievais e práticas de natureza burocrática, excludente e meritocrática. Suas formas, modos de organização e procedimentos remetem aos que eram utilizados em mosteiros, quartéis militares e penitenciárias. 

A disciplina física e psicológica imposta aos alunos se combina com o pressuposto de que todos deveriam aprender as mesmas coisas, do mesmo jeito e nos mesmos tempos, sem possibilidade de protagonismo por parte dos estudantes, num modelo pouco aberto à personalização das relações de ensino e aprendizagem. 

O resultado é a fragmentação do saber, a incapacidade de gerar aprendizagem significativa, o desalinhamento em relação a um mundo cada vez mais caracterizado pelos pressupostos da Sociedade da Informação e da economia intensiva em conhecimento. 

As pessoas que logram completar suas jornadas no Ensino Médio ou no Ensino Superior apresentam déficits tão graves em sua formação que têm poucas chances de se inserirem no mundo do trabalho, seja pela empregabilidade ou a trabalhabilidade.

Trabalhabilidade é uma abordagem que leva em conta a condição de maior fluidez, cada vez mais presente nas relações de trabalho, ao articular o desenvolvimento de competências e habilidades que privilegiem as condições do indivíduo poder prestar serviços para diferentes organizações ou atuar em seu próprio empreendimento, com vínculos e contratos cada vez de menor duração, usualmente restritos a tarefas pontuais. 

O trabalhos que são compostos predominantemente de atividades rotineiras, sejam estas manuais ou cognitivas, são os primeiros a serem automatizados. Diferentes tecnologias podem, cada vez mais, servir de substitutas e não apenas como complemento aos trabalhadores que realizam essas tarefas. Isso significa o risco de profundo agravamento na desigualdade e desemprego no Brasil. A presença das tecnologias de informação e comunicação – TIC em todos os tipos de organizações e empreendimentos, tanto na área de serviços quanto nas indústrias, pede uma ênfase no desenvolvimento das chamadas competências para a economia digital.

As competências genéricas para as TIC são aquelas necessárias no cotidiano do trabalho, na escola e na vida em geral, tais como acessar informações online ou usar softwares.

As competências complementares para as TIC são aquelas que mudam a forma como o trabalho é realizado e como as pessoas se relacionam entre si, o que requer a capacidade de processar informações, comunicar-se com outros, resolver problemas, planejar e ajustar-se rapidamente.

As competências especializadas para as TIC envolvem a produção de recursos e serviços como softwares, páginas da Web, comércio eletrônico, armazenamento em nuvem e big data, com pessoas capazes de programar, desenvolver aplicativos e gerenciar redes, por exemplo.

Nesse sentido, o Novo Ensino Médio traz novas possibilidades muito promissoras para a educação brasileira. A ampliação da carga horária, a ser composta, indissociavelmente, por uma formação geral básica e por itinerários formativos organizados a partir das áreas do conhecimento e da formação técnica e profissional, são desafios à gestão escolar que, para serem superados, exigem a adoção de abordagens que privilegiem a aprendizagem mais aberta, flexível e personalizada. 

As Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio preveem ainda que até 20% (vinte por cento) da carga horária do Ensino Médio diurno possa ser oferecida em na modalidade a distância (EAD), chegando a 30% (trinta por cento) no período noturno. Para a Educação de Jovens e Adultos (EJA) o texto permite até 80% (oitenta por cento) em EAD. 

É possível aproveitar as possibilidades de flexibilidade de tempo, de espaço e de ritmo nos estudos que a EAD traz para permitir a definição de trilhas personalizadas de aprendizagem. A nova arquitetura pedagógica tem impactos na estrutura organizacional da escola e no modelo de atuação. 

O Novo Ensino Médio pode colaborar com o conceito mais amplo de educação e formação técnica e profissional, que é considerada parte integrante da educação e da aprendizagem ao longo da vida (educação continuada) e refere-se a todas as formas de aprendizagem de conhecimentos, aptidões e atitudes relacionadas com o mundo do trabalho. 

O pressuposto para a operacionalização dessas possibilidades, no entanto, pede uma melhor articulação do setor produtivo com as instituições educacionais, públicas e privadas, bem como políticas públicas capazes de promover esse tipo de parceria ao redor de atividades econômicas prioritárias para o Estado.

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Luciano Sathler é Doutor em Administração pela FEA/USP. Membro do Comitê de Educação Básica da Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED). Membro do Conselho Deliberativo do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI). Membro do Conselho de Educação e Treinamento da Federação das Indústrias de Minas Gerais (FIEMG). Diretor da Sucesu Minas. Reitor do Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Foi o primeiro Pró-Reitor de Educação a Distância do Brasil.

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Sobre o autor
Luciano Sathler

Membro do Comitê de Educação Básica da Associação Brasileira de Educação a Distância (ABED). Membro do Conselho Deliberativo do
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI). Membro do Conselho de Educação e Treinamento da Federação das Indústrias de Minas Gerais (FIEMG). Diretor da Sucesu Minas. Reitor do Centro Universitário
Metodista Izabela Hendrix. Foi o primeiro Pró-Reitor de Educação a Distância do Brasil.

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