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Evaldo Vilela Presidente da FAPEMIG
03/Jul/2017 - 11h17 - Atualizado em 03/Jul/2017 - 11h19

Agricultura como oportunidade para startups

Como os desafios mudam, ao longo dos tempos, novos conhecimentos científicos e novas tecnologias precisam ser desenvolvidas.


Por Evaldo Vilela Belo Horizonte

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Crédito: Pixbay

 

O Brasil deixou a condição de país importador de alimentos para se tornar um dos maiores produtores de alimento do mundo, graças ao desenvolvimento das Ciência Agrárias, iniciado há cerca de 70 anos, fruto de uma das bem sucedidas políticas públicas da história do nosso país. Novos conhecimentos e novas tecnologias geraram inovações que viabilizaram a agricultura tropical, ainda não conhecida no mundo, e que atualmente garante superávit econômico muito relevante para as contas do país.

Tudo se iniciou com as pesquisas de cientistas das Universidades Federais de Viçosa e de Lavras, em colaboração com cientistas paulistas e estadunidenses, e que ganhou muita força com a criação da EMBRAPA em 1973. Foram investimentos em capacitação de doutores, novos laboratórios e apoio à pós-graduação. Mas igualmente importante foi o empreendedorismo dos nossos agricultores, desde aquela época até os dias atuais. Empreendedorismo aliado ao conhecimento novo como fórmula para o desenvolvimento social e econômico sustentável.

Como os desafios mudam, ao longo dos tempos, novos conhecimentos científicos e novas tecnologias precisam ser desenvolvidas, em processo dinâmico capaz de manter a trajetória bem sucedida da nossa agricultura. E, novamente, nossa capacidade de empreender é fundamental. Só que agora o modelo de negócio mudou drasticamente e o mercado se tornou muito mais complexo e global. Com isto, aumentaram-se enormemente as chances de protagonismo para os nossos jovens. Particularmente, os jovens universitários e pós-graduandos, que tem hoje diversas oportunidades para criarem suas startups no modelo das chamadas Agritech, valendo-se dos ecossistemas de inovação já existentes e dos processos de aceleração de novos negócios já bem difundidos. Para citar apenas alguns desafios que vão desde o enfrentamento dos efeitos das mudanças climáticas, a uma produção cada vez mais sustentável e o atendimento das exigências dos novos hábitos alimentares.

Assim, além do desenvolvimento científico e tecnológico, e do empreendedorismo dos nossos agricultores, surgem hoje oportunidades para nossos jovens empreendedores para o enorme desafio de desenvolver uma agricultura ainda mais robusta na perspectiva da segurança alimentar do planeta. Para isto, jovens empreendedores precisam se munir das necessidades da agricultura brasileira, frente às exigências de sustentabilidade, desdobradas em exigências ambientais, como consumo de água, fertilização dos solos, fim dos agrotóxicos e muitas outras, tendo como meta a produção de mais alimentos e a redução das perturbações ambientais. Motivar os jovens brasileiros para contribuir para a produção do alimento sustentável, com a visão da Ciência sobre a dinâmica das necessidades, é assegurar a qualidade das escolhas que vão desenhar o futuro do Brasil.

Mas para isto, é indispensável disseminar um novo olhar sobre o significado da cadeia de valor do alimento entre nós. É preciso melhorar a compreensão, por exemplo, do papel da Ciência e da Agricultura.  No Brasil, apenas 23% da população consegue estabelecer alguma relação entre Ciência e Alimento. Nos EUA, segundo o “Centro de Inovação para o Laticínio”, 7% dos norte-americanos acreditam que o achocolatado é oriundo de vacas marrons! 

É um cenário assustador, pois ignorância e preconceitos não combinam ou contribuem para o processo de inovação. E na agropecuária, o feito pode ser mais devastador ainda, pois a produção de alimento está no cerne da paz mundial. A escassez de alimentos sempre motivou guerras. E a produção de alimento precisa do empreendedorismo da juventude brasileira, de todas as áreas do conhecimento, como parte do processo de construção de um país mais igual e democrático.

Na França, a atriz Catherine Deneuve, quando recebeu o prêmio Molière, o mais importante da cinematografia europeia, em seu discurso de agradecimento, dedicou o prêmio aos agricultores franceses! Um reconhecimento ao trabalho dos produtores rurais, que também os nossos merecem, particularmente dos nossos jovens de hoje em dia.

 

##Empreendedorismo##Startups#agriculturaFavoritar

Sobre o autor
Evaldo Vilela Presidente da FAPEMIG

Formado em Agronomia pela Universidade Federal de Viçosa. É mestre em Entomologia pela USP e PhD em Ecologia pela Universidade de Southampton, Inglaterra. Realizou pós-doutoramentos nas Universidades: da Califórnia-Berkeley (EUA), de Nuremberg-Erlangen (Alemanha) e Tsukuba, Japão. Reitor da Universidade Federal de Viçosa (2000 - 2004) Foi Secretário Adjunto de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Minas Gerais (2007 – 2014) e Diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais – FAPEMIG (março a dezembro de 2014). Atualmente é presidente da FAPEMIG e membro da Academia Brasileira de Ciências.

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