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Comissão de Direito para Startups | OAB-MG
26/Feb/2019 - 14h24 - Atualizado em 27/Feb/2019 - 10h30

Aprendizado 3D em Tempos Líquidos

Para compreender melhor o cenário de ruptura na chamada educação 4.0, vamos analisar três casos de sucesso


Por Comissão de Direito para Startups | OAB-MG

“Em qual site posso estudar para a sua disciplina?”

Esse questionamento dirigido a mim no final da aula inaugural do semestre letivo indicava que algo havia mudado e, até então, eu não havia percebido essa mudança.

Para compreender melhor o cenário de ruptura na chamada educação 4.0, vamos analisar três casos de sucesso. Cingapura, Japão e Estônia são países reconhecidos como modelos de educação, segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

No Brasil, o PIB foi, no ano de 2017, de R$ 31 mil per capita, conforme dados da OCDE, enquanto que, na Estônia, é o equivalente a R$ 110 mil. Então é esperado que existam diferenças de investimento em educação, mas, ainda assim, a margem dessas diferenças assustam.

Enquanto por aqui investimos no ensino básico 6,6 mil reais por aluno ao ano, o governo estoniano, por exemplo, aplica o equivalente a 28 mil.

Interessante é que, se comparado com o Brasil esse valor é alto, quando comparado com os outros países europeus, não chega a impressionar. A média da União Europeia é de cerca de R$ 41 mil por aluno ao ano.

A média da União Europeia é investido cerca de R$ 41 mil por aluno ao ano
Crédito: Pixabay

Inobstante as diferenças culturais, o sucesso de Estônia, Cingapura e Japão se baseia em, pelo menos, três pilares:

a) valorização social da educação;

b) acesso universal e gratuito;

c) autonomia dos professores e escolas.

O valor social que a educação tem nesses países passa, especialmente, pela valorização da carreira docente. Apenas os melhores alunos recém-graduados nas universidades compõem uma elite pedagógica, que trabalha 9 horas por dia, inclusive com horas extras nos finais de semana. 

Em Cingapura, por exemplo, um professor ganha o equivalente a um profissional da indústria ou do setor bancário. A média salarial inicial varia entre 1,6 mil dólares de Cingapura (R$ 4,8 mil) a 3,5 mil (R$ 10,5 mil), além do bônus por desempenho em sala de aula.

Em matéria de educação aqui no Brasil ainda adotamos o modelo da antiga Prússia, de 1830
Crédito: Pixabay

Inobstante a disrupção proposta pelo novo modelo mental inaugurado na chamada "Quarta Revolução Industrial" (Século XXI), paradoxalmente, em matéria de educação aqui no Brasil ainda adotamos o modelo da antiga Prússia, de 1830. E o que é pior, se há pouco investimento na educação convencional, a inovação em matéria de educação no país tem investimento ainda menor.

Vivemos, de fato, "tempos líquidos", como afirmou Zygmunt Bauman. São tantas e tão rápidas as mudanças que o processo de aprendizado nos impõe um choque entre dois tempos absolutamente distintos: a vida 4.0 e a escola do Século XVIII.

Efetivamente, ainda não aprendemos a lidar com tantas informações e transformá-las em conhecimento e, conforme sintetiza o biólogo E. O. Wilson, “estamos nos afogando em informações e famintos por sabedoria".

E como superar esses paradoxos? Ou como ganhar com eles?

A política de "escolas pensantes, nação aprendiz" – que marcou as reformas estruturais na Educação de Cingapura se baseia na autonomia de alunos e professores, envolvendo a busca por competências extra-curriculares.

A preocupação com o bem estar no aprendizado vem, pouco a pouco, abrindo espaço para uma educação que observa o aluno como parte do processo de aprendizado e não como máquinas, como refere-se Seymor Papert .

Nesse processo de aperfeiçoamento, apesar de todo investimento estatal, a indústria do ensino privado é bastante lucrativa. Conforme reportagem publicada pelo jornal local StraitTimes, chega a movimentar um bilhão de dólares de Cingapura anualmente (R$ 3 bilhões).

As metodologias das melhores experiências de ensino pelo mundo têm apontado para três sentidos ou dimensões essenciais no processo de aprendizado: a visão, a audição e o tato.

Crédito: Pixabay

Os livros continuam essenciais, mas, respeitadas as individualidades de cada um, é possível sim investir na inovação do aprendizado e desenvolvimento do indivíduo como ser humano. Além disso, a vivência prática do conhecimento tem demonstrado ser tão imprescindível quanto as teorias em que se baseiam.

Essa é uma excelente oportunidade para as edtechs ou edutechs, as startups da educação.

Passado algum tempo, a questão que inaugurou aquele semestre letivo nunca me abandonou. Curiosamente, trouxe com ela muitas outras questões subjacentes, direta e indiretamente relacionadas ao processo cognitivo nesses "tempos líquidos".

No fatídico episódio, uma negativa simples substituiu, naquele momento, uma resposta insegura e equivocada minha, que, felizmente, ficou apenas no plano mental.

Hoje a modéstia é cada vez maior, mas compreendo um pouco melhor aquela questão que tanto influenciou a decisão de me reinventar como professor.

Autor:

Alex Cabral

Especialista em Direito do Estado. Mestre em Ciências Jurídico Internacionais pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (Portugal). Doutor em Direito Internacional Público pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG). Advogado e professor das Faculdades Kennedy de Minas Gerais e da Pós-Graduação em Direito e Tecnologia da Faculdade Arnaldo.

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Sobre o autor
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A Comissão de Direito para Startups da OAB/MG é formada por advogados e membros de diversas outras áreas, de forma interdisciplinar, que possuem interesse nas temáticas relacionadas à tecnologia e empreendedorismo. A intenção da Comissão é realizar debates e disseminar conteúdos que possam agregar valor ao ecossistema de startups, permitindo o fortalecimento deste meio.

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