Colunistas

< voltar
Alysson Lisboa Neves Jornalista
26/Oct/2018 - 14h00 - Atualizado em 05/Nov/2018 - 23h12

Brasil vai enfrentar um abismo entre ricos e pobres na era das revoluções

Estamos vivendo um período de grandes mudanças e todas ligadas às inovações tecnológicas. Seus filhos estão preparados?


Por Alysson Lisboa Neves

Segundo dados do Fórum Econômico Mundial, o crescente ritmo das rupturas tecnológicas não apenas está impactando os modelos de negócio, mas também mudando substancialmente o modo de pensar a educação e o aprendizado das nossas crianças e jovens. Movimentos disruptivos trazidos pelo crescimento da robótica e aprendizado de máquina vão exigir novas competências e pensamento dos nossos alunos e alunas. Mas estamos preparados para isso?

A revolução agrícola trouxe grande mudança no sistema de produção da Europa entre os séculos 18 e 19. Muito tempo depois, assistimos à uma nova revolução no mundo, a Revolução Industrial. Ela trouxe uma radical mudança nos processos de manufatura com a introdução de máquinas, maior eficiência da energia e o crescente uso dos motores a vapor. Esse período que compreendeu as décadas de 1820 a 1840 também foi fundamental para a evolução do planeta e inúmeras profissões surgiram para atender as demandas da época.

Em meados do século passado, começamos a assistir a uma nova revolução, a digital - conhecida também como Quarta Revolução Industrial. Essa mudança que vem impactando as nossas vidas e muda radicalmente as relações de trabalho, exige novas competências tanto na mão de obra e na indústria como também surge um novo modo de pensar as escolas e faculdades. É visível o sem-número de instituições que ampliam o portfólio de cursos para conseguir dar conta da profusão de mudanças em um mundo digital.

O vertiginoso crescimento da internet mudou a forma como as pessoas obtêm informações e o compartilhamento se transformou em algo corriqueiro para mais de quatro bilhões de pessoas ao redor do mundo. Segundo a ONU, nascem por dia, em média, 327 mil pessoas e no mesmo dia 527 mil iPhones são vendidos. Isso demonstra como a tecnologia digital está inserida em nosso cotidiano.

As três revoluções citadas acima se distanciaram largamente no tempo, o que permitiu não apenas a compreensão do fenômeno, como também a adaptação do mundo para direcionar as ações tanto na esfera governamental como também nas indústrias de base e em toda sociedade. As escolas puderam se adaptar para atender à demanda. Mas estamos perdendo agora essa guerra.

Diretora executiva do Cotemig: "A tecnologia já está alterando nossa vida
em vários aspectos e, consequentemente, impactando a economia"

Evolução precisa vir também das escolas

Ilva Lucia, Diretora Executiva do Grupo Cotemig acompanhou de perto a evolução das tecnologias e como a escola se adaptou a ela. "O Cotemig nasceu do sonho ser uma escola ágil para formar os profissionais que o mercado ainda vai precisar. Foi assim com o curso Técnico de Eletrônica em 1971, com o curso de Processamento de Dados em 1986, com o primeiro curso de Sistemas de Informação em MG em 1999, com o curso Técnico de Programação Mobile. Mais recentemente, em 2017, criamos o curso de Automação Residencial e a Pós Graduação em Data Science e Big Data em este ano", destaca a diretora.

Ilva destaca ainda a importância de colocar as habilidades analíticas no cotidiano das famílias. Para ela, os jovens e seus pais precisam entende que o conhecimento de lógica e programação estimulam a criatividade e a capacidade de resolução de problemas. Atribuição fundamentais parao futuro. "Hoje já somos impactados com a utilização dos algoritmos e dados estruturados com o Big Data. Usamos naturalmente aplicativos para comprar um pacote de viagem, ouvir músicas e ver filmes. A tecnologia já está alterando nossa vida em vários aspectos e, consequentemente, impactando a economia. Exemplo próximo de todos são os profissionais taxistas que tiveram suas profissões ameaçadas com os aplicativos", completa a diretora do Cotemig.

As revoluções serão a nova constante

O grande problema que se avizinha neste início do século 21 é que a nova constante serão as revoluções. Segundo a Pew Research Center, em 2023 estaremos atravessando, simultaneamente as revoluções da Nanotecnologia, Biotecnologia, Robótica e Inteligência Artificial. E o grande desafio será absorver todo essa demanda no modelo de sala de aula que ainda impera, principalmente no Brasil.

Novos empregos, novas profissões e novas competências serão exigidas em pouquíssimo tempo. Haverá uma diferenciação clara entre aqueles que se adaptam e aqueles que ficarão à margem de tais inovações. Velhas profissões e competência farão a maior diferenciação entre pobres e ricos da história. Como as máquinas substituirão serviços repetitivos - o que demanda hoje grande massa de mão de obra - caberá às pessoas a busca por qualificação. Mas o Brasil vem investindo em educação? Até que sim, mas...

Dados da Secretaria do Tesouro Nacional deste ano divulgou relatório que traduz o tamanho do problema que vamos enfrentar no Brasil. O país está entre os que mais gasta com a educação pública, mas está nas últimas colocações em avaliações internacionais de qualidade do ensino. Isso nos coloca longe da competição internacional, mais uma vez.

O problema é ainda maior para as mulheres

Quando tiramos um extrato mais detalhado sobre o cenário que vamos enfrentar nos próximos anos e olhamos para a situação das mulheres, os dados são ainda mais alarmantes. Segundo a Delloite/The Atlantic-EUA, em 1985, 37% dos estudantes de licenciatura em Ciência da Computação eram mulheres. Em 2010, isso caiu para 18%, e nas grandes universidades de pesquisa, o número foi de 14%.

Ciranda de Morais: "Existem várias barreiras invisíveis que afastam as mulheres da tecnologia que chamamos de 'portas de vidro'"
Crédito: Simi/Divulgação 

Ciranda de Morais, fundadora do She's Tech - movimento que se dedica ao fortalecimento da comunidade feminina empreendedora, apresenta dados alarmantes. "Segundo o Fórum Econômico Mundial, serão necessários 95 anos para equiparar as condições econômicas entre homens e mulheres. Mas esse é um dado futuro. Se as mulheres que atualmente representam entre 10 e 12% do mercado da tecnologia ficarem fora da quarta revolução industrial, a disparidade tende a aumentar", alerta a pesquisadora.

O desafio é enorme, já que tínhamos mesmo antes da grande revolução digital uma presença tímida das mulheres frente às lideranças da grandes empresas. Apenas 6,5% dos CEOs das grandes empresas são mulheres.

Ainda segundo Ciranda: "Existem várias barreiras invisíveis que afastam as mulheres da tecnologia que chamamos de 'portas de vidro'. Como não podemos mudar aquilo que não reconhecemos a existência, a conscientização sobre essas barreiras é o primeiro passo para mudarmos o futuro das mulheres na tecnologia", finaliza.

O futuro pode ser incrível, mas também ameaçador. No Vale Do Silício, a meca da inovação do mundo, moradores de rua se dividem com empresários da nova geração de empresas baseadas em tecnologia. Precisamos trazer os jovens para o novo contexto do mundo e equipar as escolas para as novas demandas que não tardam chegar.

#L'Oreal-Unesco-ABCParaMulheresNaCiência#shestechFavoritar

Sobre o autor
Alysson Lisboa Neves Jornalista

Jornalista formado pelo Uni-BH, Especialista em Produção em Mídias Digitais pelo IEC PUC Minas e Mestre em Comunicação Digital Interativa pela Universitat de Vic, Espanha. Mais de 20 anos de experiência em mídia impressa e digital, com passagem pelos jornais Hoje em Dia e Estado de Minas. Na Revista Encontro desempenhou a função de editor de novas mídias, coordenador da equipe digital e colunista. É também especialista em desenho de jornais e revistas em tablets e smartphones. Foi professor de jornalismo no Centro Universitário de Belo Horizonte - Uni-BH. É professor de pós-graduação no IEC PUC Minas e de Empreendedorismo no Cotemig. É palestrante nas áreas ligadas ao jornalismo digital, novas mídias, inovação em desenho de jornais e revistas, redes sociais e marketing digital. É colunista do Portal Uai e consultor de novas mídias e marketing digital.

Comentários

As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva dos leitores, não serão aceitas mensagens com ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência. Clique aqui para acessar a íntegra do documento que rege a política de comentários do site.