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Alysson Lisboa Neves Jornalista
17/Oct/2018 - 14h17 - Atualizado em 17/Oct/2018 - 16h29

Como as redes sociais podem interferir em nossas relações afetivas?

Declarações de amor escancaradas permeiam nosso cotidiano virtual e também podem nos fazer mal


Por Alysson Lisboa Neves

O amor nas redes sociais pode ser medido pelo número de likes? Essa convenção é definida por algoritmos e, muitas vezes, falha. Cabe a nós definir nosso “estado civil” na maior rede social do planeta - ocultar, tornar público ou restrito. O Facebook tem mais de dois bilhões de inscritos e, para muitos terráqueos, é o maior altar que já inventaram. Espaço para declarações esparramadas de afeto e entregas de amor em um quase mundo perfeito.

Além das ações em redes sociais e utilização das expressões via hashtags, a sociedade digital deixa rastros também em cada ação que executa, cada qual recheada de detalhes íntimos. Tais rastros podem dizer muito sobre os indivíduos. Exemplo disso foi comprovado pelo "preditismo" ou a "previsibilidade" amplamente divulgado em fevereiro de 2014, quando o Facebook trouxe à tona a informação de que, analisando o perfil de seus usuários, era possível prever o início de um namoro.

A informação está disponível no post Formation of Love, postado por Carlos Duik, na página do Facebook "Data Science". A mudança do status de "solteiro" para "em um relacionamento" na rede social acontecia pelo sensível aumento das curtidas, comentários e "cutucadas" entre duas pessoas. Era possível prever inclusive o dia que a mudança de status iria acontecer. Um grupo foi analisado durante 100 dias antes do início do relacionamento.

É pelo Facebook que ficamos sabendo do namoro dos famosos. É por meio dessa rede que sabemos sobre os casamentos, pedidos de noivado e tudo que envolve o amor hoje em dia. É por meio das redes sociais que stalkeamos pretendentes e cruzamos informações. É como se a vida das pessoas fosse mediada apenas pelas interações – quase sempre felizes – entre pares. É lá que nos emocionamos com mensagens de amor, entradas inusitadas nas igrejas no dia do “sim”. Até acompanhamos, como em um diário digital, a lua de mel do casal.

Nudes, selfies e after sex. Modos de representação e de liberdade que ecoam para o mundo como é sua vida amorosa. Laços de afeto entre filhos, irmãos e pais. Amor por bicho, amor por bens materiais, amor pelo próximo em filantropias escancaradas. Pôr-do-sol a dois e amores impossíveis. Está tudo lá para quem quiser ver. – Será que ele namora? Vou cutucar! – Será que ele gosta de alguém? – Temos amigos em comum? O que aquele post quis dizer? Será que foi uma indireta para mim? Conclusões, dúvidas e incertezas voláteis envolvem o amor nas redes sociais. “Vi que você removeu nossa foto.” “Você não me ama porque não tem foto nossa no seu perfil!.”

São amores construídos por uma lógica distinta do passado. Há pouco tempo, não mais que 20 anos, o amor não se mostrava assim. Havia a carta escrita de próprio punho, hoje é o tal do: “lá vem o textão”. Declarações digitadas, com links, galeria de fotos, corações em formato de emojis. São amores pulverizados, abstratos e mais fáceis de digitar.  

Zygmunt Bauman, sociólogo e filósofo polonês, definiu muito bem a era pós-digital e as efemeridades
Reprodução/Internet

A virtualidade passou a fazer parte de nós e de nosso tempo e nos deixa abertos para múltiplas interpretações de mundo. São espaços que ancoram nossas dores e nossa alegria, mesmo que na vida real não sejamos tão felizes assim. Zygmunt Bauman, sociólogo e filósofo polonês, autor de dezenas de livros definiu muito bem a era pós-digital e as efemeridades: "A era pós-digital está empurrando essa geração a "trocar de amores, amizades, marcas, aplicativos e aspirações como quem troca de tênis numa sucessão de reinícios, com finais rápidos e indolores".

#facebook#redessociaisFavoritar

Sobre o autor
Alysson Lisboa Neves Jornalista

Jornalista formado pelo Uni-BH, Especialista em Produção em Mídias Digitais pelo IEC PUC Minas e Mestre em Comunicação Digital Interativa pela Universitat de Vic, Espanha. Mais de 20 anos de experiência em mídia impressa e digital, com passagem pelos jornais Hoje em Dia e Estado de Minas. Na Revista Encontro desempenhou a função de editor de novas mídias, coordenador da equipe digital e colunista. É também especialista em desenho de jornais e revistas em tablets e smartphones. Foi professor de jornalismo no Centro Universitário de Belo Horizonte - Uni-BH. É professor de pós-graduação no IEC PUC Minas e de Empreendedorismo no Cotemig. É palestrante nas áreas ligadas ao jornalismo digital, novas mídias, inovação em desenho de jornais e revistas, redes sociais e marketing digital. É colunista do Portal Uai e consultor de novas mídias e marketing digital.

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