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Alysson Lisboa Neves Jornalista
15/May/2017 - 11h55 - Atualizado em 15/May/2017 - 12h07

Economia circular para uma indústria sustentável e mais limpa

Pensar a indústria para uma gestão de resíduos mais inteligente foi tema do CRI Minas


Por Alysson Lisboa Neves Belo Horizonte

"Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma." A famosa frase do químico francês Lavoisier, proferida há mais de dois séculos, finalmente começa a entrar na pauta das empresas para um mundo mais sustentável. Estamos saindo da economia da posse para a economia do compartilhamento e da produção mais consciente de bens de consumo.

Há 150 anos a indústria trabalha em um modelo linear, ou seja, matéria-prima, produto, consumo e descarte. Em 2008, segundo o governo brasileiro, eram produzidos diariamente, 183 mil toneladas de lixo. Apenas 1,2% desses resíduos coletados pelos sistemas oficiais de gestão foram encaminhados para reciclagem.

Quando pensamos na indústria, os rejeitos são um problema que parece não ter solução. Qual a destinação, por exemplo, das latas de tinta vazias e sobras de embalagens nos canteiros de obras? Na maioria das vezes, esse material é despejado nas caçambas e levados a algum lixão. A logística reversa, ou seja, a devolução das embalagens e descartes para quem produz e comercializa os produtos, é um processo muito raro e oneroso no Brasil.

Iniciativas isoladas como a da fabricante de automóveis Renault faz toda a diferença dentro da lógica de economia e reaproveitamento. Segundo artigo publicado por Paulo Savaget e Tatianna Silva na revista Dom, a empresa francesa tem um parque de reciclagem em Paris que faz a remanufatura dos veículos usados. A planta gerou um retorno de 100 milhões de euros em 2012.

Economia circular é um conceito novo que considera não apenas dar a destinação correta aos produtos usados ou rejeitos da indústria, mas também transforma toda a cadeia produtiva e evita que sobras sejam levadas a aterros sanitários ou incinerados. Esse tema foi amplamente debatido no encontro do último dia 11 de maio, no Centro de Referência em Inovação de Minas Gerais (CRI Minas), realizado pela Fundação Dom Cabral. O CRI é um projeto conduzido pelos professores Carlos Arruda e Ana Burcharth e reúne gestores de diversos segmentos da indústria para debater temas relevantes.

O pesquisador Paulo Savaget, da Universidade de Cambridge, trouxe à tona diversos exemplos ligados à economia circular.  Apenas a título de comparação, em 40 telefones celulares a quantidade de ouro é maior que uma tonelada de minério extraído em áreas ricas deste metal. Não seria então mais lógico minerar os equipamentos descartados pela população?

Mesmo sendo ainda muito escasso no Brasil, alguns modelos de negócio já contribuem para a prevenção de resíduos. A Embraco, líder mundial na produção de motores de geladeiras, criou a NetGenius com o objetivo de dar destinação correta aos resíduos gerados nas fábricas e também criar produtos que possam ser vendidos para outras indústrias.

Luiz Ricardo, gerente de negócios da Embraco, relatou como o sistema regenerativo já começa a dar resultados para a empresa. As geladeiras usadas, muitas vezes, trazem componentes em ótimo estado de conservação que podem ser reutilizados. Componentes dos motores depois de adaptados, por exemplo, podem ser destinados à indústria de ventiladores domésticos.

Fim da obsolescência programada?

Todos nós sabemos que uma hora ou outra os equipamentos eletrônicos vão parar de funcionar. O documentário espanhol Comprar, Tirar, Comprar, produzido pela RTVE retrata a obsolescência programada nos Estados Unidos e Espanha. Moradores de uma pequena cidade no interior comemoram o aniversário de uma lâmpada que permanecia ligada há mais de 100 anos dentro do Departamento do Corpo de Bombeiros. Na Rússia, um especialista em eletrônica desenvolveu um aplicativo que elimina o contador que limita a vida útil de uma impressora jato de tinta.

Você sabia que tais equipamentos não foram desenvolvidos, a priori, para deixarem de funcionar? O vidro do meu smartphone quebrou e a Motorola pede R$ 1.100 para trocá-lo. Essa realidade parece estar com os dias contados, pelo menos se depender de ações que começam a crescer fortemente no mundo. A nova sociedade de consumo busca, além de produtos mais sustentáveis, uma destinação mais inteligentes para os resíduos.

O conceito upcycling (processo que transforma resíduos ou produtos usados e descartáveis em novos materiais) já faz parte do cotidiano de algumas empresas como a loja de roupas Patagônia. Ela reforma bermudas usadas de seus clientes cobrando preço de custo dos materiais. A grife Elvis and Kresse transforma mangueiras de incêndio em bolsas de luxo.

Ideia semelhante acontece no Projeto Árvore da Vida, da Fiat Automóveis. Realizado pela população vizinha, à fábrica da montadora fica em Betim e ganhou projeção nacional, beneficiando mais de 21 mil pessoas desde o início do trabalho. Entre outras ações, a Árvore da Vida produz bolsas e acessórios, utilizando materiais não aproveitados na fábrica, como retalhos de cintos de segurança e sobras de tecido.

Alugar ou comprar?

Outro fator que já vem mudando no mundo é a criação de empresas como a Xerox que,  ao invés de comercializar seus produtos, trabalha na lógica de terceirização (outsourcing de impressão). Levantamento apontado pelo pesquisador Paulo Savaget aponta que, em média, o uso de furadeiras domésticas durante toda a vida não ultrapassa de sete minutos. Não seria mais lógico alugar o equipamento ou compartilhar entre vizinhos? Algumas startups, como Tem Açúcar e Alooga, já pensaram nisso.

O mercado que envolve o setor da economia circular deve faturar, até 2025, algo em torno de US$ 1 trilhão. Somente na Inglaterra, 200 mil novos empregos serão gerados até 2030 pela economia circular. Precisamos reconhecer a competência da natureza em aproveitar seus resíduos e mudar nosso modelo produtivo.

Assista ao comovente vídeo que mostra o quanto é importante o reaproveitamento de embalagens.

#reciclagemFavoritar

Sobre o autor
Alysson Lisboa Neves Jornalista

Especialista em produção em mídias digitais e mestre em comunicação digital interativa pela Universidad de Vic, Espanha. Mais de 20 anos de experiência em mídia impressa e digital, tendo passado pelos jornais Hoje em Dia e Estado de Minas. Na Revista Encontro desempenhou a função de editor de novas mídias, coordenador da equipe digital e colunista. É também especialista em desenho de jornais e revistas em tablets e smartphones. Foi professor de jornalismo no Centro Universitário de Belo Horizonte - Uni-BH. Professor de pós-graduação no Centro Universitário Una. É palestrante nas áreas ligadas ao jornalismo digital, novas mídias, inovação em desenho de jornais e revistas, redes sociais e marketing digital. É colunista do Portal Uai e consultor de novas mídias e marketing digital.

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