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José Luis Braga Professor orientador do IETEC-MG
05/Apr/2018 - 10h07 - Atualizado em 06/Apr/2018 - 14h11

Internet: plataforma para inovação e novos negócios

Desde o seu advento, a internet vem causando estragos nos modelos de negócio


Por José Luis Braga
Crédito: Pixabay

Desde o seu advento em 1969, inicialmente denominada Arpanet e que tinha como objetivo ser uma rede de pesquisa e pesquisadores nos EUA, a internet vem causando estragos nos modelos de negócio existentes. Seu desenvolvimento aconteceu rapidamente, colocando enorme pressão sobre o desenvolvimento tecnológico para suportar esse crescimento. Redes, equipamentos para redes, canais de comunicação, software de apoio, segurança, equipamentos que habilitassem seu uso. Em menos de 50 anos de existência, a internet causou um enorme impacto nos modelos de negócios baseados em átomos, em objetos físicos. Na medida em que o desenvolvimento da tecnologia permitiu, vários ícones da era dos átomos foram caindo, um depois do outro.

Crédito: Pixabay

Lembrando apenas das ocorrências mais recentes, a indústria fonográfica foi uma das primeiras a cair. A comercialização de discos de vinil, substituídos pelos CDs e DVDs, caiu diante da facilidade de termos as músicas disponíveis na rede, ao alcance de um clique de mouse.

As grandes lojas que se baseavam na venda da música em meio físico fracassaram, e um exemplo marcante foi a Tower Records, criada em Sacramento, Califórnia, uma gigante mundial da comercialização de discos, fitas, CDs e DVDs, sonho de consumo de gerações, que fechou todas as suas lojas, restando apenas uma franquia no Japão. E o outro caso emblemático foi a Kodak, que não acompanhou a evolução dos negócios de átomos para os negócios de bits habilitado pela internet, e também ruiu completamente com o surgimento da fotografia digital. De posição de destaque no setor de fotografias, foi derrotada pelo advento da fotografia digital, das pequenas máquinas digitais que hoje ninguém mais carrega, todo mundo usa o celular.

Crédito: Pixabay

Organizações exponenciais são aquelas que apresentam crescimento explosivo em valor de mercado e em base de clientes em curto espaço de tempo, regido pela curva exponencial de crescimento positivo. Empresas surgem e em pouquíssimo tempo, impensável para indústrias de produtos físicos, atingem números astronômicos em valor de mercado. São empresas que não detêm posse de nada ou quase nada físico, seu negócio principal é a informação e seu uso para proporcionar serviços aos seus usuários.

Os exemplos mais emblemáticos e conhecidos são o Uber, que não tem (ou tem poucos) veículo mas, apesar das resistências corporativas, domina o mercado de compartilhamento de veículos, com valor de mercado que pode ultrapassar os 100 bilhões de dólares (estimativa de 2017). Ou então o Airbnb, que atua no segmento de aluguel de quartos e apartamentos, não tem a posse de nenhuma propriedade física, mas é o maior locador de imóveis do mundo. Não podemos nos esquecer do Netflix, que reina (quase) absoluto no mercado de filmes e documentários disponibilizados via internet, também com uma enorme base de clientes, e em crescimento. E a Amazon, a precursora, que começou com o segmento de livros e hoje é o maior varejista do mundo, utilizando um modelo misto de átomos e bits?

Crédito: Netflix

Todos os casos que citei, e poderia ainda citar um monte de outros, são rupturas dos modelos de negócio baseados em átomos, idealizados por jovens empreendedores que enxergaram na internet a oportunidade escancarada por sua enorme capilaridade e pela convergência tecnológica representada pelo telefone celular. Dispositivo que todo mundo tem, todo mundo usa, é nosso centro de informações e comunicações que vai dentro do bolso. Negócios, transações bancárias, compras, vendas, comunicações pessoais, tudo concentrado nesse dispositivo tecnológico fantástico. E que é usado cada vez menos na sua função primordial que é o telefone. A maioria das pessoas nem se lembra de que é também telefone e pode ser usado para falar!

A internet se transformou, nesse curto período de tempo, em um meio por onde circulam as comunicações do mundo, de particulares e de governos, onde são fechados negócios bilionários, reuniões virtuais são realizadas, decisões são tomadas, namoros são desfeitos, reputações são atingidas, novos negócios surgem, velhos negócios são devidamente sepultados. Em uma velocidade de mudança vertiginosa, difícil de acompanhar.

Crédito: Pixabay

Do ponto de vista de novos negócios e possibilidades de inovação, a internet se transformou em uma plataforma de desenvolvimento como não se tem notícia anterior na história do mundo. Exceção feita ao desenvolvimento do telégrafo no século XIX na Inglaterra vitoriana, que também causou um impacto similar no mundo dos negócios. A internet, com suas facilidades e ferramentas, iguala oportunidades, pequenos se tornam tão competitivos quanto os grandes.

Rapidamente, é possível idealizar um novo tipo de negócio ou nicho de atuação no uso da informação, criar um protótipo utilizando recursos disponíveis na internet, testar o protótipo, atingir possíveis clientes, verificar aceitação, terminar o sistema final com os subsídios colhidos nos testes, e finalmente colocar no mercado algo inovador, que vá fazer diferença na vida das pessoas.

Prestem atenção nos novos modelos para o setor bancário, novas empresas denominadas FinTechs, que utilizam internet e tecnologia para balançar estruturas tradicionais do setor. O modelo bancário tradicional está na berlinda: ou acompanha e vence o desafio, ou vai ser enterrado como tantos outros foram. São oportunidades que a internet como plataforma torna disponíveis de maneira direta e a custo baixo para gerar os protótipos.

As ferramentas estão lá, a rede está lá disponível, o software está lá disponível, basta ter a ideia, conhecer o setor de negócios, enxergar o nicho de atuação, construir o protótipo e testar com um segmento de usuários da internet que possa ser facilmente atingido. Poucos conseguem enxergar esta realidade: a internet é, antes de mais nada, uma plataforma de desenvolvimento ubíqua e democrática.

#internet#negócios#startupsFavoritar

Sobre o autor
José Luis Braga Professor orientador do IETEC-MG

Professor orientador no Mestrado em Engenharia de Sistemas e Processos no IETEC-MG. Graduado em Engenharia Elétrica pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1976), mestrado em Ciências da Computação pela Universidade Federal de Minas Gerais (1980) e doutorado em Informática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1990). Pós-doutoramento na University of Florida (1998-1999). Professor Titular aposentado do DPI – Departamento de Informática, UFV, 2013.

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