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Alysson Lisboa Neves Jornalista
20/Feb/2019 - 16h20 - Atualizado em 21/Feb/2019 - 10h10

O que a hiperconexão está fazendo com nosso cérebro?

Estamos mais inteligentes ou mais dispersos? O que os smartphones estão fazendo com o nosso cérebro?


Por Alysson Lisboa Neves

A tecnologia móvel vem transformando o comportamento de nossa sociedade. Estamos focados e obcecados pelos smartphones. Tiramos o telefone do bolso, em média, 140 vezes durante o dia para conferir mensagens. Elas se multiplicam e pulam na tela a uma velocidade infinitamente maior que nossa capacidade de resposta. Um estudo conduzido pela Flurry, nos Estados Unidos, revela que ficamos, em média, cinco horas por dia pregados aos nossos smartphones. Na escola, o problema já virou epidemia.

Para professores e pedagogos, a questão não se resolve simplesmente abolindo o uso de internet na sala de aula. Esse cordão umbilical digital já faz parte de nosso corpo e somos totalmente dependentes dele. Ter foco no trabalho ou observar a explanação de um professor passou a ser uma tarefa cada vez mais árdua e sombria. Os professores, por sua vez, tentam – a trancos e barrancos – um modo de transformar a sala de aula em um lugar de conhecimento e troca de informações, disputando a atenção com as pequenas telas de cinco polegadas.

Sou de uma geração habituada ao argumento, fundamentação, discussões longas sobre problemas que implicam um bom grau de conhecimento sobre temas gerais. Agora, com tudo nas nuvens e acessível, parece que o espaço para a argumentação é outro. A conferência das informações e seu consolo argumentativo vem, quase sempre, de uma página da web. É como se encontrássemos a todo tempo alguém para nos representar. Dizer o que não conseguimos dizer, pensar o que não fomos capazes de pensar.

O que certa vez precisava ser armazenado na cabeça, passou a ser registrado em tabuletas e papiros. Tempos depois, no ano de 1.450, a prensa de Gutenberg, que permitiu a reprodutibilidade técnica e com isso a disseminação do conhecimento por meio dos livros e jornais. Passados muitos séculos, parece que o conforto e a segurança dos livros e nossa capacidade de consumir – por horas – informação e conhecimento deram lugar à internet e sua efemeridade.  

A geração Superficial

Aumentamos nosso suprimento de ideias, histórias e fatos, mas Bruce Friedman,  patologista e docente da Escola de Medicina da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, levou algo que não parece ser um caso isolado. Segundo trecho extraído do livro: O que a internet está fazendo com os nossos cérebros. A geração Superficial, de Nicholas Carr, publicado em 2011, o cientista confessa que vem perdendo a condição de ler conteúdos longos e profundos: "Perdi a minha capacidade de ler um livro como Guerra e Paz. Mesmo a postagem de um blog com mais de três ou quatro parágrafos é longa demais para eu absorver", confessa.

O desabafo relatado pelo doutor parece atingir muito mais gente do que se imagina. Um estudo da McCombs School of Business, da Universidade do Texas, em Austin (EUA), concluiu que nossa capacidade cognitiva é reduzida significativamente quando o smartphone está ao alcance - mesmo que esteja desligado.  

Segundo a pesquisa comandada pelo professor Adrian Ward, cerca de 800 usuários de smartphones deveriam completar tarefas com os smartphones por perto. A conclusão da pesquisa é de que ter um smartphone à mão ou de fácil acesso reduz a capacidade de uma pessoa se concentrar e realizar tarefas, porque parte do cérebro está trabalhando ativamente para não atender ou usar o telefone.

O problema das mídias sociais

Essa discussão sobre os benefícios e malefícios dos dispositivos móveis também se estende às mídias sociais e ao uso que fazemos dela. O escritor Andrew Keen mostra em seu livro #vertigemdigital - por que as redes sociais estão nos dividindo, dimuindo e desorientando uma chuva de argumentos que nos obriga a repensar a relação com a web e principalmente o que estamos fazendo com nossos dados pessoais. Para Keen, a "Lei do Zuckerberg" prevê que em 10 anos – a contar de 2012 – "mil vezes mais informações sobre cada indivíduo irão circular por intermédio do Facebook". É o mesmo que dizer que as redes sociais saberão simplesmente tudo que fazemos, vemos, lemos, compramos, comemos e até pensamos.

Ainda em 2009, uma pesquisa levantada pela Pew Research sobre "Isolamento social e a nova tecnologia" revelou que usuários das redes sociais como Facebook, Twitter e LinkedIn têm 26% menos chance de passar tempo com os vizinhos de rua. O livro de Alan Keen é repleto de outras pesquisas que envolvem a capacidade das redes sociais em desunir ao invés de unir as pessoas.

O que percebemos é que estamos mais ansiosos. Estamos reduzindo nosso convívio social e nossa capacidade argumentativa. Isso nos leva a uma sociedade mais controlada, menos ativa e, segundo os especialistas, menos feliz. Você concorda?

#educação#smartphone#redessociais#tecnologiasFavoritar

Sobre o autor
Alysson Lisboa Neves Jornalista

Jornalista formado pelo Uni-BH, Especialista em Produção em Mídias Digitais pelo IEC PUC Minas e Mestre em Comunicação Digital Interativa pela Universitat de Vic, Espanha. Mais de 20 anos de experiência em mídia impressa e digital, com passagem pelos jornais Hoje em Dia e Estado de Minas. Na Revista Encontro desempenhou a função de editor de novas mídias, coordenador da equipe digital e colunista. É também especialista em desenho de jornais e revistas em tablets e smartphones. Foi professor de jornalismo no Centro Universitário de Belo Horizonte - Uni-BH. É professor de pós-graduação no IEC PUC Minas e de Empreendedorismo no Cotemig. É palestrante nas áreas ligadas ao jornalismo digital, novas mídias, inovação em desenho de jornais e revistas, redes sociais e marketing digital. É colunista do Portal Uai e consultor de novas mídias e marketing digital.

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