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Alysson Lisboa Neves Jornalista
26/Apr/2017 - 10h19 - Atualizado em 26/Apr/2017 - 11h10

Plataformas como infraestrutura das cidades

Exemplos de parcerias público-privadas começam a pipocar pelos quatro cantos do planeta e parecem indicar uma nova configuração das cidades


Por Alysson Lisboa Neves Belo Horizonte

O bairro de Belle Haven, na cidade de Menlo Park, é uma região com altos índices de criminalidade. Para resolver o problema, um posto policial, que custou US$ 200 mil, foi instalado. Mas, quem paga a conta? O governo? A resposta parece óbvia, mas não é. O Facebook, que tem sua sede na cidade, assumiu o salário dos policiais e a manutenção do espaço. Exemplos de parcerias público-privadas começam a pipocar pelos quatro cantos do planeta e parecem indicar uma nova configuração das cidades. Mas isso é seguro para a democracia?

Por meio do site fiber.google.com, é possível ver o mapa dos Estados Unidos e quais regiões estão recebendo fibra ótica ou já têm a infraestrutura instalada. Quem está pagando a conta? Se você respondeu que é o governo norte-americano está enganado. O projeto é da Alphabet, holding que controla a Google. A ideia é que em pouco tempo a tecnologia possa cobrir as principais cidades do país.

Pesquisadores apontam que apenas cinco empresas mundiais - Google, Facebook, Microsoft, Amazon e Apple -, vão definir nosso futuro e também o futuro das cidades. Mas o que isso pode impactar nas nossas vidas e na gestão das cidades? O Projeto Loon X, que posiciona balões com wi-fi na estratosfera, quer cobrir áreas que não têm sinal de internet. A Google, idealizadora do projeto, estima que metade da população mundial não esteja conectada. E ela quer resolver o problema.

Estamos cada vez mais dependentes das plataformas e de suas soluções. Inovação, ao que tudo indica, parece ser um território inóspito para o Estado. Sua engrenagem robusta empurra, gradativamente, o futuro da gestão e processamento dos dados para poucas empresas ao redor do mundo. É um caminho inevitável, uma vez que nós, usuários, cedemos nossas informações em troca de uma melhor interação nas redes sociais em suas inúmeras plataformas.

Apenas para servir de exemplo, atualmente 165 mil aplicativos na área da saúde estão disponíveis nas app stores. São controladores de pressão, batimento cardiaco, contador de passos, fadiga etc. Segundo o site Business Insider, 34 bilhões de dispositivos estarão conectados à internet até 2020. Esse crescimento exponencial de aparelhos conectados ao corpo, conhecidos como IoT (internet das coisas), vai entregar preciosas informações sobre nosso estado de saúde e pode definir sua aceitação ou não de como beneficiário de um plano de saúde, por exemplo.

Não é absurdo acreditar que um novo modelo de discriminação se avizinha. O maior problema disso, porém, está na descentralização do Estado ou na sua ausência no que se refere à construção de uma sólida base de dados de seus cidadãos, sem contar ainda com as novas regulamentações que toda essa mudança invoca. Quem controla nossos dados de saúde? Quem informa sobre nosso modo de dirigir? Quem sabe quais trajetos fazemos diariamente? Quais músicas ouvimos, a quais filmes assistimos? Como o governo poderá acessar as informações de seus cidadãos? Será que podemos hoje comparar os dados que empresas como Facebook e Google têm sobre nós com as informações disponíveis que a Polícia Militar tem em seus computadores?

Comportamentos, rotinas, preferências, qualidade de vida, saúde e demais indicadores relacionados à nossa vida vão estar (ou já estão) nas nuvens, que são controladas, majoritariamente, por cinco empresas globais. Nenhuma dessas empresas está estabelecida no Brasil. Estamos vulneráveis ou podemos acreditar que essa nova configuração de poder que sai da mão estatal é, na verdade, o melhor caminho para a nova democracia?

A pesquisadora Van Dijck, professora de estudos comparativos de mídia da Universidade de Amsterdam tem se debruçado sobre o tema há vários anos. Em seu livro The Culture of Connectivity - A Critical History of Social Media, ela aborda, entre outras coisas, como o CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, pensou sua rede social em um ambiente no qual as pessoas pudessem se comunicar livremente sem as restrições governamentais ou de mercado. Ao mesmo tempo que as redes sociais funcionam (e bem) como divulgadoras das ações e políticas governamentais, por outro lado tais usos estão atrelados a suas diretrizes ou a sua política interna.  

Resta saber de que modo a política de Estado pode se beneficiar dos dados para gerar ações que visam o bem-estar social. Não parece que o que está em jogo é a democracia, mas sim a descentralização do poder do Estado. Somos nós que escolhemos doar informações preciosas sobre nossas vidas e depositá-las em alguma nuvem de dados. São  as gigantes da internet que fazem a gestão de tudo isso, vendendo a ideia de segurança e melhoria da qualidade de vida. Estamos diante de uma mudança radical na qual o Estado abre, de certa forma, seu controle em troca de parcerias. Resta saber até onde essa amigável troca vai chegar.

#cidadesinteligentes#googleFavoritar

Sobre o autor
Alysson Lisboa Neves Jornalista

Especialista em produção em mídias digitais e mestre em comunicação digital interativa pela Universidad de Vic, Espanha. Mais de 20 anos de experiência em mídia impressa e digital, tendo passado pelos jornais Hoje em Dia e Estado de Minas. Na Revista Encontro desempenhou a função de editor de novas mídias, coordenador da equipe digital e colunista. É também especialista em desenho de jornais e revistas em tablets e smartphones. Foi professor de jornalismo no Centro Universitário de Belo Horizonte - Uni-BH. Professor de pós-graduação no Centro Universitário Una. É palestrante nas áreas ligadas ao jornalismo digital, novas mídias, inovação em desenho de jornais e revistas, redes sociais e marketing digital. É colunista do Portal Uai e consultor de novas mídias e marketing digital.

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