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Alysson Lisboa Neves Jornalista
13/Mar/2018 - 17h43 - Atualizado em 18/Jun/2018 - 13h46

Por que é tão difícil ensinar empreendedorismo nas escolas?

O aluno precisa estar no centro do processo para mostrar suas competências e enfrentar desafios


Por Alysson Lisboa Neves
Estudantes precisam entrar nos processos criativos dentro das escolas não como apenas ouvintes, mas como protagonistas
Crédito: Alysson/Simi

Crenças limitantes nos fazem acreditar que a inovação ocorre apenas dentro de laboratórios modernos e bem equipados, mas não é bem assim. O que dificulta o processo criativo é a percepção das pessoas em relação ao seu próprio potencial. Para inovar não precisamos de grandes investimentos, precisamos muito mais de estímulos e de um ambiente acolhedor.

Existe naquelas pessoas que inovam e criam empresas disruptivas um dom especial? Ou empreender pode ser ensinado a qualquer um? Tenho participado de projetos que envolvem o ensino do empreendedorismo para adolescentes e também para alunos de pós-graduação. Apesar da maturidade trazida pela diferença de idade desses dois grupos, uma coisa é comum. O medo de ser desafiado é uma constante.  

Para empreender uma boa ideia não basta. É preciso, primeiramente, (inter) empreender. Ou seja, criar em nós a vontade e o desejo da mudança. É fundamental criar sentido e fazer uma nova configuração mental, colocando o indivíduo como protagonista. O aluno precisa entender que ele está agora no comando de suas ideias e não mais na mão de outras pessoas.

Revendo a literatura sobre empreendedorismo em sala de aula e acompanhando alguns portais como Porvir.org e Endeavor, fica fácil comprovar que existem hoje no Brasil iniciativas isoladas em algumas escolas e professores dispostos a sair do lugar comum para pensar em uma sala que envolva o aluno em projetos disruptivos.

Dados da Endeavor mostram que 25% das pequenas e médias empresas no Brasil fecham suas portas com apenas dois anos de atividade. O número alarmante é extrato de uma realidade enraizada na cultura do país. O fato não está unicamente na dificuldade de gerir um negócio. Está também na falta de um aprendizado acumulado de erros e acertos. O jovem tem medo de errar. O empresário brasileiro, salvo raras exceções, não foi educado na cultura do “erre rápido e aprenda com o erro”. Na escola, falhar não é visto como um processo de construção e evolução.

Há sempre a punição da caneta vermelha, das provas de competência e de critérios avaliativos pouco modernos que não se alinham ao momento distinto que vivemos hoje. Desenvolver soluções criativas é também superar desafios pessoais. Segundo João Roberto Loureiro de Matos e Leonam dos Santos Guimarães, autores do livro "Gestão da Tecnologia e Inovação, os bloqueios de ordem pessoal" atuam na percepção, emoção e no sentido de limitar a habilidade de se reconhecer e trabalhar com novos desafios.

Entre os desafios estão:

Ausência de autoconfiança

O indivíduo tende ao fracasso e evita arriscar-se, tornando-se excessivamente sensível à crítica ou a comentários. Vale destacar que este ponto é um desafio especial para os alunos porque, na maioria das vezes, não foram treinados a receber críticas e construir sentido a partir delas. Em geral, quando criticados, recuam e muitas vezes, desistem dos projetos culpando professores, colegas e a própria escola.

Tendência ao conformismo

Atitude pessimista diante das mudanças que se apresentam. Como consequência, limitação de acesso às áreas do cérebro responsáveis pela imaginação e criatividade. O mindset fixo, ou seja, a ideia de que as coisas já estão postas e que não é interessante fazer mudanças começa a ser incutido em nossas mentes desde o momento em que a escola afasta de nós o lado lúdico do aprendizado com lápis de colorir, canetinhas, tesoura e papéis coloridos. Então deixamos, gradativamente, de ser criativos e somos pouco estimulados a pensar algo novo.

Alunos precisam desenvolver competências e prototipar ideias
Crédito: Alysson/Simi

Necessidade de vivenciar o que é conhecido: o desejo pela segurança e pela ordem. Isso impede a geração da habilidade de tolerar a ambiguidade. Tememos o caos e a desordem. Por isso, avançamos pouco.

Outro problema que acomete principalmente alunos do ensino médio é o entusiasmo excessivo. Eles são autoconfiantes e acreditam que as soluções são simples de serem implantadas. Que as coisas acontecem não por esforço, mas por sorte.

Voltando à nossa pergunta inicial. Existe naquelas pessoas que inovam e criam empresas disruptivas um dom especial? Ou empreender pode ser ensinado a qualquer um? Considero que o empreendedor é aquele que tem maior tolerância ao erro e maior capacidade de se adaptar. Vender ideias e avançar nos projetos é um trabalho que requer, acima de tudo, perseverança.

Os alunos precisam ser estimulados a criar algo novo. Livre das amarras e longe das certezas cortantes. É preciso deixar pontas soltas para que eles, ao longo do processo de evolução dos negócios e de suas startups, possam aprender e refazer a rota. Não é possível ensinar tudo. É necessário que o professor leve o estudante até a linha de largada. A jornada só poderá ser vencida por ele. E ninguém mais.

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Sobre o autor
Alysson Lisboa Neves Jornalista

Jornalista formado pelo Uni-BH, Especialista em Produção em Mídias Digitais pelo IEC PUC Minas e Mestre em Comunicação Digital Interativa pela Universitat de Vic, Espanha. Mais de 20 anos de experiência em mídia impressa e digital, com passagem pelos jornais Hoje em Dia e Estado de Minas. Na Revista Encontro desempenhou a função de editor de novas mídias, coordenador da equipe digital e colunista. É também especialista em desenho de jornais e revistas em tablets e smartphones. Foi professor de jornalismo no Centro Universitário de Belo Horizonte - Uni-BH. É professor de pós-graduação no IEC PUC Minas e de Empreendedorismo no Cotemig. É palestrante nas áreas ligadas ao jornalismo digital, novas mídias, inovação em desenho de jornais e revistas, redes sociais e marketing digital. É colunista do Portal Uai e consultor de novas mídias e marketing digital.

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