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José Luis Braga Professor orientador do IETEC-MG
12/Dec/2018 - 10h12 - Atualizado em 12/Dec/2018 - 10h55

Artigo: Tecnologia e seus impactos

Tecnologia com seus efeitos e suas serendipidades!


Por José Luis Braga

O desenvolvimento de novas tecnologias sempre tem o foco em um objetivo ou problema a ser resolvido. Difícil ou até impossível prever os seus impactos na sociedade, e seus usos futuros não imaginados na concepção original. Assim foi e continua sendo com as grandes invenções e descobertas que permeiam a nossa história. Exemplos não faltam.

Em 1938, os cientistas alemães Otto Hahn e Fritz Strassman descobriram o processo da fissão nuclear do urânio, cujo efeito principal é a geração de energia na forma de calor. Os usos sonhados e visualizados na época eram sociais, como, por exemplo, a geração de energia elétrica e usos medicinais. No entanto, no final da Segunda Guerra Mundial, o processo de fissão nuclear foi utilizado para construir as bombas atômicas lançadas pelos EUA sobre Hiroshima e Nagasaki, matando ou contaminando radiativamente milhares de inocentes.

Otto Hahn, segundo um historiador, “assustou-se profundamente ao ver sua descoberta sendo usada para produzir uma arma tão assassina, embora soubesse que, a princípio, isso era possível”. Ficou com a saúde abalada e ameaçou suicidar-se caso o segredo de produção da bomba atômica caísse nas mãos das nações do eixo nazista. Outro exemplo mais recente é o Viagra, que foi desenvolvido no início dos anos 1990 pela Pfizer como um medicamento para hipertensão e angina, que são doenças do coração. Pesquisando mais, descobriram um efeito colateral do Viagra na função erétil masculina, e o resultado todos já conhecem. Um impacto social foi a chamada “geração Viagra”, crianças nascidas de pais idosos, que usaram o Viagra, um efeito colateral nunca imaginado no desenvolvimento original.

Há 20 anos, em 1998/1999, eu estava na Universidade da Flórida, nos Estados Unidos, em um programa de treinamento como professor visitante. Um belo dia, viajando de carro na rodovia I-75, vejo em sentido contrário uma mulher dirigindo uma caminhonete utilizando o piloto automático, com o pé direito descalço apoiado no painel do carro, e com um livro apoiado sobre o volante, lendo tranquilamente, com um olho no livro e outro na estrada. Ou pelo menos, foi isso que desejei que estivesse acontecendo. Quem imaginaria que o piloto automático, uma invenção para o conforto físico do motorista, pudesse ser usado para liberar o motorista para outras atividades, que não prestar atenção na estrada?

Serendipidade

Agora, vamos ao uso não pretendido da tecnologia divulgado mais recentemente na imprensa mundial. O surgimento do carro autônomo e seu uso massivo nas estradas – previsto para acontecer nos próximos 5 anos, no máximo – abre várias janelas para uso não pretendido da tecnologia. Uma delas é o sexo dentro dos carros, prática que já é comum no mundo todo.

O carro é um verdadeiro motel ambulante, mas até então estacionado em garagens ou em outros locais. Mas, tem um detalhe: é sexo com o carro em movimento, na estrada, sendo dirigido pelo piloto virtual, autônomo! A notícia, que vocês podem ver aqui neste link, foi reproduzida em vários outros sites e blogs mundo afora.  Dá para imaginar uma situação dessas? Melhor não estender o assunto, mas vocês leitores podem imaginar as situações inusitadas que podem surgir, como efeitos colaterais dos efeitos colaterais. Já vamos para um segundo nível de efeito colateral.

A lição a ser extraída daqui é que qualquer produto inovador, que tenha forte impacto na vida de seus usuários, fatalmente vai levar a efeitos colaterais. Em alguns casos, difícil ou impossível prever quais. Em outros casos, bem previsíveis. Um software de automação comercial, com uma arquitetura baseada em processos de uso corrente na área, certamente vai induzir seus usuários a adotar esses processos práticos, produzindo impacto na rotina diária e na vida das pessoas que o utilizam, na melhoria da qualidade do trabalho executado. E cabe aos projetistas pensarem nesses efeitos, construindo o software correto, sem falhas, e com base nos melhores processos e práticas organizacionais.

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Sobre o autor
José Luis Braga Professor orientador do IETEC-MG

Professor orientador no Mestrado em Engenharia de Sistemas e Processos no IETEC-MG. Graduado em Engenharia Elétrica pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1976), mestrado em Ciências da Computação pela Universidade Federal de Minas Gerais (1980) e doutorado em Informática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1990). Pós-doutoramento na University of Florida (1998-1999). Professor Titular aposentado do DPI – Departamento de Informática, UFV, 2013.

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