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Alysson Lisboa Neves Jornalista
17/Aug/2018 - 13h46 - Atualizado em 20/Aug/2018 - 11h47

Uma máquina pode escrever textos com a criatividade humana?

Silvia Dalben, pesquisadora da Fafich, na UFMG, debate o tema em dissertação


Por Alysson Lisboa Neves

A escrita começou a ser desenvolvida há mais de 4 mil anos na Mesopotâmia. Ela se desenvolveu, ganhou ao longo dos anos novas palavras, ficou mais moderna e, mais recentemente, em especial na língua portuguesa falada no Brasil, perdeu acentos e diferenciações. Ganhamos também novas palavras como escanear, tuitar, upar, shippar e tantas outras que foram trazidas pelas novas tecnologias.

Porém, a discussão agora é se o robô ou bots com suas redes neurais serão capazes de escrever com a mesma criatividade que nós, humanos. Considero que o robô pode escrever textos simples, mas a língua é imponderável. Não é possível colocar tudo em regras - e o algoritmo precisa delas para funcionar. A produção de sentido criativo não é possível de ser realizado por um robô. A linguagem é um organismo vivo e misterioso. Vivemos nela para dar conta da vida.  

Textos que exigem criatividade como boletins meteorológicos ou resultados de partidas de futebol podem ser construídos por robôs, porém, a análise e atuação dos jogadores, o clima da torcida, o nervosismo do técnico que perde a partida são atribuição da criatividade humana, algo que os algoritmos ainda não conseguem realizar.

O crescente volume de textos sobre dados estatísticos, finanças, esporte realizado pela inteligência artificial ou “repórteres robôs” fez surgir a especulação sobre a possibilidade de que, em curto prazo, a atuação humana nas redações seria dispensável.

Para debater o tema, a pesquisadora Silvia Dalben, do Programa de Pós-graduação Em Comunicação Social da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, avançou na pesquisa que foi transformada em dissertação defendida no mês passado. “Nenhum ‘jornalista robô’ será capaz, algum dia, de substituir os jornalistas humanos. Softwares, algoritmos e computadores são realidades presentes há décadas nas redações”, completa Dalben.

Silvia Dalben: A inteligência artificial será capaz de produzir textos simples e como resultados de jogos e balancetes financeiros
Crédito: Divulgação

Com o tema "Cartografando o jornalismo automatizado: redes sociotécnicas e incertezas na redação de notícias por robôs", a pesquisadora defendeu que textos curtos e repetitivos podem ser realizados por máquinas, mas as subjetividades da narrativa jornalística e sua importância social são atribuições humanas. Para chegar às conclusões, a pesquisadora mapeou três estudos de caso de veículos jornalísticos que adotaram a ferramenta, nos Estados Unidos e na França.

A máquina, a cada dia, aprende como nós

Antes de participar de uma oficina sobre o Computador IBM Watson, na Fundação Dom Cabral, estava convencido de que o aprendizado de máquina jamais daria conta, por exemplo, de identificar ironias - um problema para identificar se um texto é positivo ou negativo. No entanto, após conhecer mais de perto o que o aprendizado de máquina - chamado de machine learning - pode fazer, fiquei com uma grande dúvida sobre essa barreira colocada pelos linguistas e especialistas em comunicação.

A minha inquietação sobre o tema é que temos hoje em dia o início de um momento histórico para a informação. Os ganhos exponenciais transformam o que era impossível em algo viável em pouco tempo. Claro que o robô não enxerga contextos, mas nós, sim. Tanto enxergamos que somos capazes de contar sobre eles nas milhares de mensagens de texto e áudio transmitidos no Whatsapp ou Facebook, por exemplo.

Já estão sendo gravadas por meio dos aparelhos celulares todas as nossas conversas cotidianas e, com ela, nossa percepção de mundo. A inteligência artificial é capaz de pegar todas as afirmações, converter em texto, gerar sentido e conteúdo sobre coisas que só nós, humanos, podemos sentir, como amor, compaixão e medo.

O certo é que as máquinas estão aprendendo 24 horas por dia, todos os dias da semana, a partir da nossa contribuição “voluntária”. Somente se levarmos em consideração o Facebook, temos mais de 2,1 bilhões de usuários escrevendo textos, descrevendo imagens e emitindo opiniões. Será que nós seremos impactados com o resultado de todas essas opiniões livres nas redes neurais?

#bolsadepesquisa#chatbot#jornalismoFavoritar

Sobre o autor
Alysson Lisboa Neves Jornalista

Jornalista formado pelo Uni-BH, Especialista em Produção em Mídias Digitais pelo IEC PUC Minas e Mestre em Comunicação Digital Interativa pela Universitat de Vic, Espanha. Mais de 20 anos de experiência em mídia impressa e digital, com passagem pelos jornais Hoje em Dia e Estado de Minas. Na Revista Encontro desempenhou a função de editor de novas mídias, coordenador da equipe digital e colunista. É também especialista em desenho de jornais e revistas em tablets e smartphones. Foi professor de jornalismo no Centro Universitário de Belo Horizonte - Uni-BH. É professor de pós-graduação no IEC PUC Minas e de Empreendedorismo no Cotemig. É palestrante nas áreas ligadas ao jornalismo digital, novas mídias, inovação em desenho de jornais e revistas, redes sociais e marketing digital. É colunista do Portal Uai e consultor de novas mídias e marketing digital.

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