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Alysson Lisboa Neves Jornalista
21/Nov/2018 - 13h27 - Atualizado em 22/Nov/2018 - 11h40

Vivemos o fim da privacidade. Será?

Você já leu os termos de aceite dos apps que instala no seu celular? Você pode estar entregando seus dados sem saber o que vão fazer com eles


Por Alysson Lisboa Neves
Segundo o especialista, a boneca Cayla tem graves erros de segurança de dados
Crédito: Reprodução/Internet

Existem pessoas que lutam, às vezes globalmente, para que direitos fundamentais sejam preservados. Um deles é Finn Lützow-Holm Myrstad. O pesquisador lidera o desenvolvimento de melhores políticas e padrões digitais mais éticos no Conselho de Consumidores da Noruega. Seu trabalho já conseguiu avanços significativos para que as marcas digitais tenham mais ética no trato com seus usuários.

O TED realizado pelo pesquisador conta a história da boneca Cayla, que interage com as crianças por meio de aplicativo mobile. Até aí tudo bem. Ajuda as meninas a se comunicarem, tirar dúvidas e interagir com a boneca cotidianamente. Mas o que poucas pessoas sabiam até a denúncia trazida pelo pesquisador norueguês é que qualquer pessoa dotada de um celular poderia se conectar à boneca e construir um diálogo ameaçador se passando "por amigo". Bastava estar na porta da residência que era possível ser a "voz" de Cayla.

A violação de nossas residências não está mais se dando apenas quando o invasor pula o muro ou entra pela janela. Ela chega pelo ar e em dispositivos hipernectados. No caso da boneca Cayla, não era necessária senha e não havia qualquer barreira de segurança. A denúncia foi publicada em 20 países, mostrando essa significativa falha de segurança. Com isso, Cayla foi proibida na Alemanha e retirada das gôndolas da Amazon e Walmart. Conseguem imaginar a quantidade de diálogos gravados entre pais e filhos captados pela boneca e o poder disso para gerar publicidade direcionada?

O alerta acima é apenas a ponta do iceberg ou o embrião de um problema que vai se agigantar nos próximos anos. Estima-se que em 2020 tenhamos 20 bilhões de dispositivos conectados à internet. Quem está garantindo a nossa segurança? Marcas como Facebook, Google e aplicativos de relacionamento detêm dados íntimos de grande parte da população mundial. Apesar de alegarem que esse volume de informação serve para nos entregar publicidade direcionada e melhores serviços, fica a dúvida no ar.

Empresas mais bem informadas sobre nós

Finn Lützow-Holm destaca que dados podem ser trocados entre empresas, sem que a gente mesmo saiba. "Com base no histórico de navegação, os algoritmos podem decidir se conseguiremos ou não um empréstimo", destaca o pesquisador.  Outro exemplo ainda mais assustador: um aplicativo "fitness" pode vender dados a uma seguradora impedindo-nos de conseguir cobertura no futuro. Tudo isso está acontecendo no mundo atualmente e ainda não nos demos conta.

E quando a manipulação de dados altera uma eleição, muda os nossos gostos e faz com que tenhamos comportamentos baseados no coletivo? A nova série do Netflix Eu e o Universo mostra em seu primeiro episódio como as redes sociais influenciam diretamente nossas escolhas. Em um dos exemplos, uma pesquisa realizada mostra duas fotos: a primeira de um gato como se tirasse uma selfie. A segunda, de um canguru deitado na grama.

Captura de tela da série Eu e o Universo: Na rede social seguimos o comportamento da maioria
Reprodução/Netflix

Perguntando para as pessoas na rua qual das fotos elas gostam mais, a foto do gato ganhou quase a totalidade dos votos. Sabe por quê? A selfie do gato tem mais de 2.5 milhões de curtidas enquanto a do canguru apenas 13. O interesse gerado pelos outros usuários altera as nossas escolhas. No episódio, em um segundo momento, as fotos são trocadas e o canguru é quem passa a ter mais de 2 milhões de curtidas. O resultado? Todos passam a preferir a imagem do canguru. A cientista Alie Ward tem a resposta. Somos programados a gostar do que é popular.

A manipulação de dados está reconfigurando a sociedade do conhecimento e de modo remoto estamos sendo conduzidos a tomar decisões com pouca isenção. Teremos cada vez mais informação disponível no mundo e possibilidades boas e ruins para os usuários da rede. É inegável que os mapas digitais são uma grande invenção. O Google percorreu as principais ruas do mundo - o equivalente a  9,6 milhões de quilômetros. Essa distância é suficiente para ir à Lua e voltar 12 vezes.

O arsenal de dados gerados são volumosos e podem gerar ainda mais riqueza e conhecimento para uma das maiores empresas de tecnologia do mundo. E você? Sabe exatamente onde estão seus dados pessoais na enorme teia da internet?

#bancodedados#netflix#seguraçaFavoritar

Sobre o autor
Alysson Lisboa Neves Jornalista

Jornalista formado pelo Uni-BH, Especialista em Produção em Mídias Digitais pelo IEC PUC Minas e Mestre em Comunicação Digital Interativa pela Universitat de Vic, Espanha. Mais de 20 anos de experiência em mídia impressa e digital, com passagem pelos jornais Hoje em Dia e Estado de Minas. Na Revista Encontro desempenhou a função de editor de novas mídias, coordenador da equipe digital e colunista. É também especialista em desenho de jornais e revistas em tablets e smartphones. Foi professor de jornalismo no Centro Universitário de Belo Horizonte - Uni-BH. É professor de pós-graduação no IEC PUC Minas e de Empreendedorismo no Cotemig. É palestrante nas áreas ligadas ao jornalismo digital, novas mídias, inovação em desenho de jornais e revistas, redes sociais e marketing digital. É colunista do Portal Uai e consultor de novas mídias e marketing digital.

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