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04/Dez/2018 - 08:00 - Atualizado em 03/Dez/2018 - 14:35

Cientistas estudam retrovírus que pode causar leucemia e linfoma

Retrovírus da família do HIV/Aids, o HTLV é estudado pela UFMG há mais de duas décadas


Por Redação Belo Horizonte/MG
Professora Edel Stancioli e alunos realizam teste diagnóstico patenteado
Crédito: Júlia Duarte/UFMG

Pesquisadores do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) e da Faculdade de Medicina da UFMG dedicam-se, há mais de duas décadas, a investigar a ação do HTLV, retrovírus da família do HIV/Aids. Segundo os estudos, o HTLV-1 pode causar doença neurodegenerativa/desmielinizante e leucemia/linfoma. Já o HTLV-2, embora tenha em geral consequências bem menos graves, pode induzir à síndrome desmielinizante (doença que provoca fraqueza nas pernas, acarretando dificuldade para andar e podendo levar à paralisia).

Em suas duas formas, o vírus pode ser transmitido pela amamentação, transfusão de sangue, transplante de órgãos e uso de drogas ilegais injetáveis. Como há pouca informação, geralmente suas consequências não são tratadas desde o início, o que impede medidas mais eficazes para diminuir o sofrimento dos pacientes.

Além de teses e dissertações, os estudos da UFMG já geraram patente de teste diagnóstico. Financiada pelo SUS, que está sendo licenciada para uma empresa mineira, uma vacina terapêutica deverá ser patenteada ainda este ano. De acordo com a universidade, a ação do HTLV, assim como acontece com o HIV, ainda não pode ser evitada, mas medicações paliativas e fisioterapia têm sido desenvolvidas contra alguns sintomas.

Transmissão é de célula para célula

Descrito em 1977, depois de isolado no Japão, o rotavírus retrovírus têm forma peculiar de interagir com o hospedeiro. “Eles inserem seu genoma no genoma da célula hospedeira, e a infecção é para o resto da vida”, diz a professora Edel Barbosa Stancioli, coordenadora do Laboratório de Virologia Básica e Aplicada do ICB.

Enquanto o HIV circula no sangue e se multiplica quando a imunidade baixa, o HTLV não cai na corrente sanguínea, mas passa de uma célula a outra. Ainda de acordo com a professora, o HIV é tratado quando está em grande quantidade, e o HTLV não tem tratamento. “Nós, na UFMG, e outros grupos testamos produtos naturais que possibilitam pequena melhora do sistema imune, mas ainda não há como bloquear o vírus”, explica.

Segundo Edel, o HTLV-1 circula mais na África, América Latina e em países como Japão, China e Austrália. A prevalência é mais alta no Japão, mas o Brasil lidera em números absolutos. Estima-se que haja entre cinco e dez milhões de infectados no mundo, e no Brasil seriam 2,5 milhões. Mas a professora alerta que esses número são obtidos por projeções matemáticas, já que há muito pouca informação sobre o vírus.

A pesquisadora informa que apenas 5% dos infectados desenvolvem um dos dois polos principais de doenças – leucemia/linfoma das células T de adulto e a mielopatia associada ao HTLV, em que o vírus ataca a medula. Mas ressalva que há intercorrências de adoecimento graves, como uma dermatite difícil de tratar. O HTLV-2, por sua vez, infecta cerca de 200 mil pessoas no Brasil. De acordo com ela,  os grupos mais atingidos são os indígenas e usuários de drogas injetáveis.

Ambulatório da UFMG cuida de pacientes infectados

Desde abril deste ano, o projeto de extensão Cuidar HTLV, da faculdade de Medicina da UFMG, oferece assistência e educação em saúde a pacientes e familiares, no Centro de Tratamento e Referência em Doenças Infectocontagiosas Orestes Diniz. Segundo Julia Caporali, infectologista e professora, que coordena o projeto, os pacientes trazem suas dúvidas e dificuldades e se encontram com certa frequência, o que favorece a identidade de grupo e o aprendizado.

Ainda de acordo com ela, os pacientes assintomáticos recebem orientações relacionadas à prevenção e apoio para proteção contra o estigma. As pessoas que apresentam a mielite associada ao HTLV – que causa problemas motores, retenção urinária e intestinal e dores nas costas e membros, entre outros problemas – recebem os cuidados específicos no próprio ambulatório. E os que desenvolveram leucemia ou linfoma são encaminhados para o Hospital das Clínicas da UFMG.

OMS não lida de forma correta com HTLV
Segundo a professora Edel Stancioli, nem a Organização Mundial de Saúde (OMS) lida com o HTLV da forma como deveria. “Não se conhecem números, há pouquíssimos ambulatórios, e os testes diagnósticos ainda são importados. Os sintomas causam sofrimento e péssima qualidade de vida”, afirma.

A boa notícia é que, há cerca de quatro anos, entrou em ação uma força-tarefa mundial que persegue metas como a expansão do conhecimento sobre prevalência, produção de testes diagnósticos em cada país – como forma de reduzir custos – e a produção de vacinas destinadas a bloquear a progressão do vírus nas pessoas infectadas.

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Fonte: UFMG

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