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01/Mai/2018 - 07:00 - Atualizado em 29/Abr/2018 - 09:54

Pesquisa alerta para redução de potencial para dupla safra no Brasil

Trabalho pode ajudar no monitoramento da agricultura intensiva de sequeiro e contribuir para a conservação do meio ambiente


Por Redação
Crédito: Wikipedia

Estima-se que em 20 ou 30 anos o agronegócio pode perder sua relevância na balança comercial brasileira. Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) emite um alerta para o futuro das duplas safras no cerrado e, principalmente, na região conhecida como Matopiba, a mais recente fronteira agrícola do Brasil, que compreende os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

Muito do sucesso do agronegócio brasileiro é consequência das pesquisas que permitiram que a soja ocupasse a região central do país a partir da década de 1970. Além da eficiente fertilização de um solo pobre, ácido e velho para a agricultura, tecnologias de melhoramento genético criaram variedades adaptadas ao bioma cerrado.

Um dos grandes desafios tecnológicos da época foi vencer a barreira relacionadas ao fotoperíodo, já que soja não podia ser plantada em baixas latitudes porque precisava de dias mais longos para crescer. Até a década de 1990, por exemplo, era impensável cultivar grãos em escala comercial próximo à linha do Equador. Com as variedades adaptadas geneticamente, em menos de duas décadas os plantios chegaram ao nordeste e ao norte do país.

Outra mudança proporcionada pelo uso da  tecnologia foi a alteração do conceito de que a natureza determina a hora certa para plantar e colher. A independência do fotoperíodo permitiu que a soja fosse plantada mais cedo e que, depois da colheita, se produzisse outras culturas como milho e algodão em um mesmo ano. A produtividade anual foi às alturas e o Brasil tornou-se referência mundial em duplas safras. Um exemplo disso é que, desde o início desta década, a produção de milho safrinha, como é chamado o produto plantado depois da soja, representa mais da metade das 40 milhões de toneladas produzidas no país. O negócio movimenta em torno de 23 bilhões/ano e não para de crescer, porque ainda há muito espaço para ampliação da dupla safra, inclusive na Matopiba.

De acordo com os especialistas, além de melhorar o rendimento das fazendas, a dupla safra protege o solo, mantém a mão de obra empregada por mais tempo e, por produzir mais numa mesma área, evita a pressão por expandir as fronteiras agrícolas para áreas de proteção ambiental na Amazônia.

Mas ainda há outro fator limitante para o progresso do agronegócio no Brasil: a dependência das chuvas que, com as mudanças climáticas, começam cada vez mais tarde e acabam mais cedo, aumentando a dependência da irrigação. E, segundo os especialistas, este problema tende a se agravar.

A pesquisa

Mapear as contribuições das tecnologias na evolução do agronegócio da soja no Brasil é apenas umas das contribuições da pesquisa realizada pelo Grupo de pesquisa em Interação Atmosfera/Biosfera do Departamento de Engenharia Agrícola da UFV.

“Desenvolvemos estimativas históricas de calendários de plantios de soja para safras únicas e duplas desde 1974, combinando os dois fatores mais limitantes para o plantio, a estação chuvosa e o comprimento do dia”, afirma o autor da pesquisa, Gabriel Medeiros Abrahão. O pesquisador também cruzou dados da produção com as expectativas das mudanças climáticas nos próximos anos e concluiu que, dificilmente, será possível continuar expandindo as duplas safras pelos próximos 20 ou 30 anos. Para o orientador do trabalho, Marcos Heil Costa, o conjunto de dados resultantes fornece informações espaciais e temporais inéditas sobre o cultivo de soja no Brasil.

O pesquisador explica que foram aplicados os mesmos métodos às estimativas futuras do clima para investigar uma possível contração na área com potencial de cultivo duplo com as mudanças na estação chuvosa. Para ele, os dados apontam  que, se forem usadas as atuais variedades de soja, as mudanças climáticas ameaçam reduzir 17% da área onde é possível plantar duas safras no Brasil central e 60% na região do Matopiba.

A pesquisa avalia ainda que prováveis novas variedades de soja e milho de ciclo mais curto poderiam reduzir o impacto da redução das chuvas para 4% no Mato Grosso e para 7% nas demais regiões do centro-oeste, mas não seriam eficientes no Matopiba que perderia, pelo menos, 30% do potencial de dupla safra. “A irrigação terá um papel importante na compensação destes impactos, mas as limitações de infra-estrutura e de recursos hídricos tornam essa solução improvável para a região toda. As perspectivas para a ampliação da dupla safra no Matopiba não são otimistas nos prováveis cenários das mudanças climáticas”, disse Gabriel

O professor Marcos Heil acredita que a redução da duração das chuvas já é uma realidade observável nas regiões estudadas e será maior se houver ainda mais desmatamento na Amazônia. “Se em 20 ou 30 anos a dupla safra for inviável em determinada região, é possível que produtores que  atualmente já ocupam a fronteira agrícola migrem ainda mais para o norte onde a estação chuvosa é mais longa. Isso significa avançar sobre a floresta amazônica e até mesmo sobre áreas remanescentes do cerrado. E nós já sabemos que o desmatamento agrava ainda mais a escassez de chuvas em outras regiões. É um ciclo indesejável”.

Para os pesquisadores da UFV, os resultados do estudo que originou a dissertação de mestrado de Gabriel Abrahão extrapolam as tendências já conhecidas das mudanças do clima. “Estamos antecipando um problema para não sermos pegos de surpresa como aconteceu na década de 1980, quando o país custou a perceber a evolução do desmatamento na Amazônia”, afirma Marcos Heil Costa. Gabriel Abrahão espera que os resultados do trabalho colaborem para o monitoramento da dupla safra em agricultura de sequeiro e gerem consequências para a conservação do meio ambiente no Brasil.

O artigo “Evolution of rain and photoperiod limitations on the soybean growing season in Brazil: The rise (and possible fall) of double-cropping systems” foi publicado na Revista Agricultural and Forest Meteorology.

Para baixar o banco de dados da evolução de épocas de plantio ao longo do tempo, clique aqui.

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