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12/Jul/2018 - 11:58

“Universidades nos formavam para trabalhar em grandes empresas”

Fundador da MelhorPlano, Felipe Byrro é o #PerfilEmpreendedor da semana e fala sobre a relação entre a universidade e o empreendedorismo


Por Renato Carvalho/SIMI Belo Horizonte/MG

Um dos fundadores da startup Melhor Plano - que ajuda o consumidor a economizar em serviços - Felipe Byrro, é o #PerfilEmpreendedor desta semana. Natural de Belo Horizonte, com 30 anos, Byrro conta um pouco da sua experiência pelos dois lados do empreendedorismo: como empreendedor e como investidor. Ele também avalia a  relação entre as universidades e a geração de negócios. Confira a entrevista:

SIMI: Como você começou a empreender?
Felipe: Comecei minha primeira empresa quando ainda estava na faculdade de Engenharia de Produção, na UFMG. Trabalhava como estagiário na Ambev e a empresa dava ingressos de festas, de eventos. Uma vez, ganhei um ingresso de uma festa de Réveillon, mas queria ir em outra. Eu precisaria vender o ingresso que ganhei para comprar o da festa que queria, mas que já estava esgotada. Diante desse problema, vi que era muito difícil esse processo. Descobri que nos EUA haviam criado uma empresa que solucionou esse problema, a Stubhub. Decidi copiar esse modelo. Foi o primeiro mercado secundário de ingressos, que é como chamamos. É como se fosse um Mercado Livre de ingressos de grandes eventos. A pessoa que comprou o ingresso de um grande evento, e não vai, pode revender para alguém que não conseguiu comprar. Então, saí da Ambev para criar essa empresa e acabei fundindo com uma empresa de uma aceleradora do Rio. Tivemos um certo sucesso inicial, mas depois não foi para frente. Fechamos o AindaTem, que era como chamava a startup, e voltei para BH. Aqui me envolvi, novamente, com empreendedorismo, mas dessa vez não como empreendedor e sim no papel de investidor. Eu era gestor do Acelera MGTI e foi lá que conheci o Pedro, meu sócio. Nesse programa, entendi o outro lado, já que meu trabalho era selecionar, investir e ajudar startups a crescerem.

Como é o outro lado do empreendedorismo? Como é ter que selecionar e investir em startups?
Felipe: Foi uma experiência bem legal para mim. Primeiro, eu estava do lado do empreendedor e não entendia o papel do investidor. Eu só tinha tido uma visão empreendedora. Quando você passa a ser o outro lado, de quem investe e aposta na empresa, começa a analisar outras coisas e entender o outro lado da moeda. Começa a aprender com várias empresas. Imagine que eu tinha 12 empresas no portfólio e convivia com elas durante seis meses de forma intensa. Você passa a ver o que funciona e o que não funciona em diversas empresas, de diversos segmentos. É um momento em que eu aprendi bastante trabalhando com grandes empreendedores. Pessoas e empresas incríveis podendo conviver e compartilhar, com elas, todas as vitórias e derrotas.

SIMI: Essa experiência te agregou como empreendedor?
Felipe: Vejo que cometi muitos erros, erros banais e erros de marinheiro de primeira viagem, que hoje já não cometo mais. E como gerente do programa, pude ver vários erros que, às vezes para o empreendedor, não é tão claro, mas para quem está de fora é bem claro. Você acaba aprendendo muito com os erros e acertos dos outros e encurta bastante sua experiência.

SIMI: Você tem alguma meta pessoal como empreendedor?
Felipe: Meu objetivo, como empreendedor da MelhorPlano, se formos colocar em um propósito mais alto, seria ajudar bilhões de pessoas a economizar bilhões, que é o objetivo da startup. E como empreendedor, meu objetivo sempre foi criar uma empresa de alto impacto, seja criando empresas em sequencial, um empreendedor serial, ou fazer com que a Melhor Plano seja uma empresa de impacto bem grande. É o meu objetivo: impactar muitas vidas ao longo da minha carreira.

SIMI: Você citou que começou a empreender ainda na faculdade. Como você vê o empreendedorismo nas universidades?
Felipe: Melhorou muito de quando eu era estudante para cá, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. Eu me lembro quando estava na faculdade e queria empreender. A faculdade dava pouco acesso às ferramentas e possibilidades para isso acontecer. Muitas vezes era reprimido por professores. Havia uma matéria de desenvolvimento de produtos que eu queria fazer sobre startups que estavam acontecendo em BH, como elas desenvolviam novos produtos. Mas meu professor disse que não poderia fazer dessa forma e que deveria fazer sobre uma indústria, como a FIAT, por exemplo. A mentalidade da minha época era para sair pronto para trabalhar em uma grande empresa. Era a mentalidade comum, tanto que demorei 4 ou 5 anos dentro da faculdade para descobrir que um dos maiores cases de compra de empresas tinha saído da faculdade que eu estudava: a compra da Akwan pela Google. Não tinha incentivo ao empreendedor. Meus professores queriam que eu trabalhasse em grandes empresas ou gerasse papers e artigos acadêmicos em grandes revistas. Esse era o incentivo. Hoje, por uma revolta com relação a isso, sou voluntário de uma disciplina de empreendedorismo na UFMG. É um questionamento que alguns empreendedores do San Pedro Valley tiveram. “A gente reclama muito que a universidade não apoia, está longe do ecossistema empreendedor, mas o que podemos fazer para ajudar?”. Daí veio a ideia dos próprios empreendedores organizarem uma disciplina em que várias pessoas se voluntariam a dar aula. Há conexão, realmente, dos alunos e empreendedores muito experientes.

SIMI: Esse contato dos empreendedores com os alunos já era um primeiro passo para essa mudança de mentalidade?
Felipe: Acho que sim. Claro que existe uma mudança cultural que é muito difícil de acontecer e não acontece da noite para o dia. Há também as burocracias do sistema brasileiro, que não incentiva o mercado a estar próximo da universidade. Isso vem mudando. A UFMG é uma líder nesta mudança, mas as coisas têm que acontecer de forma natural. A conexão dos empreendedores com alunos começa a mostrar para os jovens que existe outra possibilidade. Talvez aquele cara que é um péssimo aluno, que não se encaixa nas regras da universidade, tenha outra oportunidade. Ele pode ser um excelente empreendedor e estamos lá para mostrar isso. Além de seguir uma carreira em uma grande empresa, é possível empreender, usando toda a capacidade intelectual que eles têm, todo o conhecimento, para criar riqueza para o país, construindo empresas que geram empregos e valor para a sociedade. Tudo começa por essas pequenas conexões.

SIMI: Essa disciplina é de algum curso específico?
Felipe: É uma disciplina do Departamento de Ciência da Computação. Já chegamos a abrir para quem quisesse, independentemente de ser da escola. O curso já chegou a ter quase 150 alunos, entre matriculados da UFMG e pessoas como ouvintes. Hoje a disciplina juntou com mais outras três e é realizada às quintas e sextas-feiras. Em um dia da semana tem uma palestra, em que vai alguém de fora, um empreendedor para falar sobre algum assunto ou contar um case. No outro dia, acontece uma aula. Normalmente, algum empreendedor ensina sobre alguma temática do processo de começar uma empresa.

SIMI: Por ter essa experiência dos dois lados, qual é o maior problema que você enxerga no empreendedorismo?
Felipe: O Brasil está amadurecendo. Quando comecei, há mais de cinco anos, ninguém falava sobre startup. Não era muito difundido. Depois veio uma onda meio ‘modinha’ e a galera até brinca que ao invés de montar uma banda, hoje quer montar uma startup. Começou a ter muito empreendedor de palco, uma galera que nunca fez nada de impactante e sai por aí falando que é empreendedor e ensinando outras pessoas. Acho que isso já diminuiu bastante, mas está ficando cada vez mais sólido, com pessoas entendendo que precisam gerar resultado e não é só modinha. Acho que essa galera que começou por modinha já ficou pelo caminho.

SIMI: Mas como essa ‘moda’ atrapalhou o empreendedorismo por aqui?
Felipe: Atrapalha porque acabam acontecendo muitos fracassos, que geram desilusão em muita gente. Acaba impactando, de certa forma. Esse empreendedores de palco acabam incentivando de forma errada. Mostram como se fosse tudo muito fácil e que qualquer um pode chegar e fazer. Mas isso faz parte do amadurecimento do ecossistema. Sempre vai ter uma parcela disso. Por um lado teve um ponto muito positivo. Muitas dessas pessoas que empreenderam por ser legal, e que achavam que ficariam ricos, quebraram a cara e agora têm mais experiência para voltar a empreender novamente.

SIMI: Você tem alguma referência no empreendedorismo?
Felipe: Hoje a grande referência de muita gente é o Elon Musk, que está criando algo realmente impactante no mundo. O Jeff Bezos, da Amazon, também está criando um impacto na indústria muito grande.

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